Gastronomia

Um mixologista brasileiro em Londres

Matheus Cunha conta à Carbono como foi participar da competição Beefeater Mixlnd 6

por Artur Tavares 14 Fev 2017 10:37

Aconteceu na última semana em Londres a sexta edição do campeonato de coquetelaria Beefeater Mixlnd, que reúne mixologistas de todo o mundo para analisar sua criatividade e habilidade. Patrocinado pela marca de gim Beefeater, o Mixlnd levou o brasileiro Matheus Cunha para a terra da Rainha em uma prova diferente: ele e seus concorrentes deveriam criar drinks inspirados em filmes clássicos. Cunha, com passagem pelo The Sailor Pub, Nazca Bar, Jet Lag Pub, e pela Casa 92, hoje comandando seu próprio bar, o The Juniper 44º, se inspirou em O Discurso do Rei. De volta, ele enviou para a Carbono um relato exclusivo de tudo que vivenciou por lá. Confira abaixo:

“Eu já conhecia Londres de outras viagens e foi uma volta bem esperançosa, tanto por poder rever a cidade como por estar competindo em um campeonato tão importante pra mim. Foi bem bacana, fomos tratados como verdadeiros artistas pelos especialistas e parecia que a cidade inteira estava acompanhando nossa trajetória – vimos cartazes sobre a final com nossos nomes pela cidade inteira, em ônibus, outdoors… Qualquer lugar que íamos e comentávamos com outras pessoas sobre o evento todos nos parabenizavam, ficavam impressionados. Deu pra perceber que os ingleses estavam vibrando mesmo com a final!

Fora isso conhecemos alguns bares icônicos de coquetéis – como o Savoy – e foi uma experiência incrível. Eu já havia conhecido o Erik Lorincz, chefe do bar de lá, e ele lembrou de mim e chegou a me chamar pra fazer alguns drinks atrás do bar dele. Foi um sonho realizado! Conhecer o Desmond – master distiller da Beefeater – foi de arrepiar. Ele me contou um pouco mais a fundo sobre a história do gim e do seu processo de produção, dividiu comigo um pouco do seu conhecimento extenso sobre o assunto. Foi uma troca bem legal.

Lá inclusive pudemos destilar nosso próprio gim, eu gostei muito do meu resultado, ficou muito bom. Descobri que é uma bebida rápida e fácil de ser feita, mas você precisa saber o que está fazendo pra dar em um produto de qualidade. Assim eu entendi tudo o que vai na botânica do gim até dar a bebida final. A história do gim foi contada.

Também foi bacana conversar com bartenders de outras partes do mundo, entender como funciona o processo criativo de outras culturas, ver as diferenças com o método brasileiro. Com 32 países juntos acabei fazendo grandes amigos e a troca de informação foi muito rica. Senti que saí ainda mais da caixinha e tirei o máximo de proveito desse período.

Teve uma prova cinematográfica em que entramos em uma sala de cinema e lá tivemos o desafio de criar um cocktail que poderia ser consumido dentro do cinema em copo descartável, além da nossa própria pipoca para acompanha-lo! Combinei um drink com baixo teor alcoólico a uma pipoca bem apimentada com bitter de grapefruit – e deu bastante certo.

Sobre o campeonato, por apenas 1 ponto não fui pro desafio final de 8 mixologistas, então acho que posso me considerar um entre os dez melhores bartenders de gim do mundo! Isso pra mim já é um prêmio incrível! Saí feliz, fiz uma apresentação boa e acho que o Brasil foi muito representado. Chegaram a comentar até sobre alguns ingredientes do meu drink não serem nativos de Londres, mas quanto contei a história de cada um ficaram realmente impressionados, sinto que me realizei”

A receita de O Discurso do Rei, explicada por Cunha, é a seguinte: 

– 40 mL de gin Beefeater com infusão de capim santo – simboliza o diretor do filme;
– 8 gotas de tintura de manga verde – simboliza o momento em que o rei ainda não estava pronto pra seu discurso, ou seja, “ainda verde”;
– 15 mL de mix cítrico – simboliza as dificuldades encaradas pelo rei em seu aprendizado;
– 10 mL de licor de gengibre – simboliza a gradual melhora na fala;
– Shub (espécie de xaropa à base de vinagre) de uva verde – simboliza a transformação e o consequente alcance de equilíbrio

Modo de preparo:
É só colocar todos os ingredientes em uma coqueteleira e bater. Para finalizar fazer dupla coagem para uma taça previamente resfriada. Depois é só servir.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.