Gastronomia

São Paulo do alto

Os bares e restaurantes em rooftops com as melhores vistas para o skyline paulistano

por Shoichi Iwashita 22 Fev 2017 09:50

Cidades verticalizadas, com muitos prédios, para nós que estamos ali do chão, são bastante — e esteticamente — opressoras. No nível da rua, o horizonte deixa de existir, o céu é apenas um feixe quando temos tempo de olhar para cima e, talvez por isso, a sensação de se estar acima do mar de prédios seja tão prazerosa. Do alto, a feiura das cidades que se desenvolveram sem planejamento se dilui na grandeza da metrópole, os problemas são invisíveis, as individualidades se dissolvem, temos de volta o céu e o horizonte. E a sensação de grandeza, de poder, é inevitável. E São Paulo — que não tem belezas naturais (e, tirando alguns poucos exemplos, a arquitetura tampouco é seu forte) — parece que finalmente encontrou sua vocação de explorar a vista para o seu panorama urbano. Amando ou odiando essa que é uma das maiores cidades (e a quarta maior área metropolitana) do mundo, quem não se impressiona com a vista para o tapete de prédios ao sobrevoar a região central da cidade? Em São Paulo, tirando os hotéis e alguns poucos edifícios modernistas cujas coberturas são espaços comunitários, o último andar dos edifícios é sempre privado, pertencente apenas aos donos das unidades localizadas nos andares mais altos ou aos passageiros de helicópteros. Mas qual são os lugares com as melhores experiências para se apreciar a vista da cidade? Dos espaços nas alturas que funcionam como bares e restaurantes, abertos todos os dias, como é o caso do Skye, do Terraço Itália e do Esther Rooftop — todos sem pretensões gastronômicas e com a variável vista embutida nos preços —, e também daqueles que só abrem para o público quando tem eventos como o PanAm e o Balsa, você confere todos os detalhes e como aproveitar o melhor de cada lugar no nosso guia de hoje.

BAR DO TERRAÇO ITÁLIA [Centro] Bar old school com jazz ao vivo



Não tem melhor vista de São Paulo. Ponto. Aberto em 1971 no 42º andar do segundo mais alto prédio da cidade, o Circolo Italiano, vulgo Edifício Itália (o mais alto é o Mirante do Vale, aquele prédio enorme ao lado do viaduto Santa Ifigênia, que você pode apreciar do Balsa, outra opção de rooftop bar mais abaixo), e com paredes de vidro oferecendo uma vista 180º do skyline paulistano, a sensação é a de estar num Zeppelin sobrevoando a cidade. A decoração clássica e aconchegante com cara de clube inglês, assinada por Jorge Elias há 20 anos, envelheceu melhor no bar que no restaurante do Terraço Itália, com suas confortáveis poltronas de couro, mesas baixas com tampo de mármore, tapetes orientais, abat-jours e potiches de porcelana, lustres de cristal e boiseries e teto de madeira. E como abre às 15h durante a semana, é perfeito para passar o fim de tarde tomando um drinque, assistindo as luzes da cidade se acenderem e tomando alguns sustos com os helicópteros que passam próximos dos vidros. O serviço eficiente e old school, e a qualidade dos drinques e das comidinhas, garantem a satisfação deste que é um dos lugares que a gente ama na cidade. Calcule R$ 25 para o manobrista, R$ 30 de entrada, R$ 42 por um drinque, R$ 54 para uma porção de canapés de salmão defumado. BAR DO TERRAÇO ITÁLIA: Avenida Ipiranga, 344, 42º andar do Edifício Itália; metrô República. Telefone 55 11 / 2189-2929. De segunda a quinta, das 15h à meia-noite; sexta-feira, das 15h à 1h da manhã; sábado, das 12h à 1h da manhã; e domingo, das 12h às 23h. Para acessar o site, clique aqui.

SKYE [Itaim] Bar e restaurante informal à beira da piscina



É muito ruim se hospedar no Unique e não poder nadar na piscina da cobertura à noite (imagina nadar à noite, sozinho, com aquela vista?), tendo de se contentar com a piscina fechada do spa. Mas para todos os que vão até o Skye, o bar e restaurante que fica no último e maior andar do edifício, um semicírculo invertido e suspenso desenhado por Ruy Ohtake, a satisfação com a vista — para o parque do Ibirapuera logo ao lado, e, mais além, para o arborizado e residencial Jardim Europa, e os prédios que sobem pelos Jardins até prédios e as antenas da Avenida Paulista — é garantida. Prefira ir em noites menos concorridas (esqueça quinta, sexta e sábado, dias em que você vai ficar numa fila lá no térreo e esperará quase uma hora, ou mais, para conseguir subir) e de preferência bem no começo da noite para conseguir pegar uma das espreguiçadeiras no concorrido deck com paredes de vidro e ficar curtindo a noite outdoors batendo papo e bebericando. A entrada do Skye, acessível por um elevador exclusivo para os não-hóspedes, com alabastros no chão, nas paredes e no teto, iluminados por trás, é cinematográfica. Quanto aos preços, prepare-se para pagar pela experiência: R$ 50 de manobrista, R$ 40 por um Aperol (sem serviço), R$ 50 para qualquer comidinha. SKYE: Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 4700, no oitavo andar do Hotel Unique. Entrada pela lateral do hotel. Telefone 55 11 / 3055-4700 De segunda a sexta, das 12h às 15h, e das 18h até o último cliente. Sábado, das 13h às 16h, e das 18h até o último cliente. Domingo, das 13h até o último cliente. Restaurante até às 23h, bar até meia-noite e meia. Só faz reservas para hóspedes. Para acessar o site, clique aqui.

ESTHER ROOFTOP [Centro] Bar e bistrot com terraço



No 11º andar do primeiro edifício modernista da cidade de São Paulo e do Brasil, inaugurado em 1938, o Esther Rooftop fica de frente para a Praça da República, na região que a gente mais ama no centro, com vista para outro edifício icônico da cidade: o Eiffel, projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950. Para ter a vista, você precisará chegar cedo para tentar conseguir uma mesa ou um banco no bar no terraço (assim como o Skye, eles não fazem reserva). No cardápio, comida francesa de bistrô com toques orientais, bem feita, sem grandes pretensões gastronômicas, e cervejas artesanais, coquetéis clássicos e uma boa seleção de vinhos franceses. Tem um ótimo e bem servido almoço executivo durante a semana, a R$ 69, com a vantagem de que o prédio fica bem frente à saída do metrô República, na linha vermelha. Dá pra ir e vir, beber e não pegar o trânsito do meio-dia. {Para acessar a nossa matéria exclusiva sobre o Esther Rooftop, clique aqui.} ESTHER ROOFTOP: Praça da República, 80, 11º andar do Edifício Esther. Telefone 55 11 / 3256-1009. De segunda a sexta, das 12h às 15h no almoço e das 18h às 23h; sábados e domingos, das 12h até às 17h. Não faz reservas.

PANAM CLUB [Paulista] Com vista 360º, só abre quando tem festa



Nos últimos dois andares do hotel que foi símbolo do luxo na São Paulo dos anos 1980 e 1990, com direito a acesso ao heliponto do edifício, que se torna um terraço ao ar livre (apenas uma parte pode ser ocupada) com vista para todas as coloridas e iluminadas antenas da Avenida Paulista, o Pan Am faz parte do portfolio de bares, restaurantes e casas noturnas do Grupo Vegas, junto com o Riviera Bar, o Cine Joia, os clubes Lions e o Yacht, e o Z Carniceria. E, apesar de a entrada do clube não se dar pelo lobby do hotel, o elevador que você pega para chegar lá em cima é panorâmico e você poderá apreciar a arquitetura oitentista do Maksoud Plaza e as obras do átrio, de artistas como Maria Bonomi e Yutaka Toyota (autor da escultura de aço de mais de trinta metros de comprimento pendurada no teto). Mas, o Pan Am não tem programação fixa, por isso é importante ficar atento à agenda do clube pela sua página no Facebook, para conseguir comprar ingresso para uma das festas que acontecem lá. Com uma vista matadora e 360º da cidade, não deixe de dançar iluminado pelos neons coloridos e beber drinques preparados por barmen vestidos de piloto. Você ainda tem direito a uma tarifa exclusiva para sair do clube e passar o resto da noite no hotel, com café da manhã, por R$ 330. PAN AM CLUB: Alameda Campinas, 150, no Hotel Maksoud Plaza, Bela Vista. Telefone 55 11 / 3111-6330. Para acessar a página do Facebook onde eles divulgam o calendário de festas, clique aqui.

DUE CUOCHI [Cidade Jardim] Jardim suspenso com vista para a Marginal Pinheiros

Como arquitetura, eu tenho todas as ressalvas quanto ao projeto do complexo do qual faz parte o Shopping Cidade Jardim: o estilo neoclássico dos prédios altíssimos, a arquitetura que não conversa nem com a cidade nem com seu entorno, o gigantismo que faz com que o empreendimento pareça um bunker para milionários. Mas no último piso do shopping, no meio de um agradável e bem cuidado jardim suspenso ao ar livre, fica o restaurante com vista Due Cuochi, um bom restaurante italiano (prove o taglioline com molho de tomate, camarão, limão-siciliano e rúcula) que tem também — além do salão fechado com pé-direito alto e amplas janelas — algumas mesas onde você pode comer sob as jabuticabeiras, sempre com vista para os prédios comerciais da Marginal Pinheiros e a ponte que se tornou um dos símbolos da cidade de São Paulo, a Octávio Frias de Oliveira, mais conhecida como Ponte Estaiada. O restaurante abre sete dias da semana mas, apesar de estar num shopping, fecha entre almoço e jantar. DUE CUOCCHI SHOPPING CIDADE JARDIM: Avenida Magalhães de Castro, 1200, terceiro piso, Cidade Jardim. Telefone 55 11 / 3552-3560. De segunda a sexta, almoço das 12h às 16h e jantar das 19h30 à meia-noite; sábado, das 12h às 17h e das 19h30 à meia-noite; e domingo, das 12h às 23h. Para acessar o site do Due Cuochi, clique aqui. Imagem: Tadeu Brunelli

BALSA [Centro] Bar e comidinhas, terraço aberto, só em eventos

Da nossa lista é o mais alternativo de todos. O edifício Farol é antigo — tem mais de 70 anos — e nada conservado (os elevadores não funcionam, o que faz com que você tenha de subir os quatro andares de escada). Mas o prédio atraiu a atenção de um casal de empresários que se apaixonou pela vista do terraço no último andar e abriu nos dois últimos andares o Balsa, esse misto de espaço para eventos culturais (eles não fazem aniversários nem casamentos) e bar, que acabou atraindo para os outros andares artistas, designers e jornalistas. O Farol é hoje praticamente um ou vários espaços culturais que se comunicam entre si. Chegando ao Balsa, o que se vê é um salão que mais parece uma sala de festas improvisada no sótão da casa da sua tia acumuladora, repleta de mesas, cadeiras, poltronas, vasos, quadros, fotos, copos, tudo velho, amontoado. E é subindo mais um lance de escada que você chega ao terraço a céu aberto com uma linda vista para o centro e alguns dos marcos arquitetônicos da cidade: o viaduto Santa Ifigênia, o Mirante do Vale (o prédio mais alto da cidade, com 170 metros de altura, o Itália tem 150 metros de altura), o Altino Arantes (vulgo “Banespa”), o Martinelli, o Vale do Anhangabaú. BALSA: Rua Capitão Salomão, 26, na esquina com a do Seminário, Anhangabaú. Não tem telefone. Para acompanhar a programação, visite a fan page deles no Facebook, clicando aqui. Imagem: Shoichi Iwashita

MAC [Ibirapuera] Quando vai abrir um bar ou restaurante no topo do museu?



O Museu de Arte Contemporânea da USP, há alguns anos instalado neste belíssimo edifício assinado por Oscar Niemeyer anexo ao Parque do Ibirapuera, apesar de jovem não tem sido muito bem administrado e é nítido já o descaso com a exposição das obras da coleção. Mas, o prédio possui um terraço enorme no último andar com uma linda vista para o parque, a 23 de maio, o obelisco; locação mais que perfeita para mais um ponto com vista linda para a cidade. Imagem: Shoichi Iwashita

QUAL NÃO VALE A PENA?
Mas, São Paulo tem um lugar que vende a vista, mas não entrega a experiência, o The View, que fica no topo do flat Transamérica na Alameda Santos nos Jardins. Para vista linda, decoração e atmosfera, prefira ir ao bar do Terraço Itália, ao Skye ou ao Pan Am.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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