Gastronomia

O Império Cipriani

Qual é a relação entre o Cipriani, o Harry’s Bar, o Harry Cipriani e o Cipriani Downtown?

por Shoichi Iwashita 27 Jun 2017 11:26
O Bellini foi criado em 1948 aqui no Harry’s Bar, onde ele é servido neste copo pequeno, com pouco mais de dez centímetros de altura, e vem geladíssimo. A receita é simples: 30 ml de purée de pêssegos brancos (mais delicado que o amarelo) e 150 ml de champagne.

Apesar de terem conquistado o mundo, a origem do império Cipriani — e também da rede de hotéis, trens e cruzeiros de luxo Orient-Express, hoje Belmond — é uma só: Veneza e o Harry’s Bar, inaugurado 1931 pelo commendatore Giuseppe Cipriani. Bar simples, mítico, imperdível — e desde 2011, Patrimônio Histórico Nacional —, onde foram criados o carpaccio e o bellini (e que prepara um ótimo Dry Martini servido num copinho de shot, numa proporção super-dry intitulada Montgomery com azeitonas à parte, e um ainda aconchegante minestrone que combina perfeitamente com uma Veneza escura e nublada), Giuseppe abriu o Harry’s Bar com o dinheiro que um rico norte-americano, Mr. Harry Pickering, lhe deu quando ele era barman do muito bem frequentado Hotel Europa (conta lenda que a família de Pickering cortara sua mesada e foi Giuseppe quem lhe emprestou dinheiro, devolvido anos depois com juros bem generosos). E até hoje o Harry’s é administrado pelo filho de Giuseppe, Arrigo Cipriani, já com mais de 80 anos de idade.

Com o sucesso do bar, em 1934, Giuseppe abre a Locanda Cipriani na tranquila Torcello (a uma hora e meia de barco da Piazza San Marco), com apenas seis suítes (até hoje sem TV, mas com pequenas bibliotecas em cada quarto), restaurante e jardins, que recebe nobres e intelectuais, de Hemingway, Chagall, Churchill e Ernst em tempos passados à Rainha Elizabeth II e o Príncipe Charles, que fazem visitas à propriedade em “caráter privado”.

Mas é na década de 1950 que Giuseppe dá seu maior passo, com a idealização de um hotel em Giudecca, esta ilha tranquila — e bastante acessível — com vista para a Piazza San Marco. Tendo como sócias as três filhas do Conde de Iveagh (a Viscondessa Boyd of Merton, Lady Honor Svedar e Lady Bridgit Ness, da centenária família Guinness), eles compram o terreno de 12 mil metros quadrados e o Hotel Cipriani é inaugurado em 1958. O sucesso foi tanto que, em 1968, eles compraram o terreno ao lado para construir a piscina; até hoje a única de Veneza. {Para saber como é se hospedar no Cipriani, não deixe de ver nossa crítica sobre o hotel, clicando aqui}.

Em 1976, o empresário norte-americano do ramo de transporte internacional de carga, James Sherwood, hóspede habitué do Cipriani, compra o hotel de Giuseppe e das irmãs Guinness (durante um período difícil da história italiana, o do terrorismo das Brigadas Vermelhas, uma organização paramilitar que objetivava a revolução marxista). Em 1977, Sherwood compra num leilão dois vagões de trem originais do Orient Express, a mítica linha de trem de luxo fundada em 1883 que fazia a rota Paris – Istanbul. Com muitos outros vagões de trem históricos comprados nos anos seguintes (mais de 35), em 1982 nasceria a viagem Venice-Simplon Orient Express (que não tem nada a ver com o Orient Express original, a não ser pelos vagões que Sherwood comprou nos leilões), ligando Londres a Veneza, onde os viajantes terminavam o trajeto no Cipriani, o primeiro hotel do que seria a Belmond, hoje com mais de 40 propriedades no mundo (incluindo o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, que Sherwood comprou em 1989, dando ao principal restaurante do hotel o nome Cipriani, uma homenagem ao primo de Veneza), rede que até 2014 se chamava Orient Express.

Assim, o hotel Cipriani de Veneza é a única propriedade que não pertence mais à família Cipriani, já na quarta geração, que segue administrando o Harry’s Bar, a Locanda Cipriani, e a rede de bares e restaurantes, a linha de massas e molhos Cipriani Pasta (e agora também hotéis) nos Estados Unidos (só em Nova York são cinco endereços entre o Harry Cipriani na 5ª Avenida e o Cipriani Downton, além do Cipriani Club Residences), no México, na Rússia, em Dubai e Abu Dhabi. Só não espere o mesmo Bellini do Harry’s Bar no Cipriani Downtown, onde ele é servido numa flûte em um ambiente sem a história e a tradição do original de Veneza.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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