Gastronomia

O brunch saudável do S Simplesmente

Sensação na cidade de São Paulo não tem glúten nem carne, mas não perde o saber

por Shoichi Iwashita 16 Dez 2016 11:33
O ambiente da Casa S. Durante a semana, são apenas 10 lugares para se sentar. Nos dias de brunch, eles aumentam a capacidade para 40 pessoas, colocando mais mesas e cadeiras no que seria a entrada para carros e garagem da casa

Porque como muito fora por causa do trabalho, o lema da minha vida sempre foi comer saudável e correto em casa — zero-carne-zero-sal-zero-açúcar-zero-gordura-pouca-farinha-branca — porque é impossível saber como são preparados os alimentos na maioria dos restaurantes: se vai muita gordura, se os ingredientes e matérias-primas são os melhores (porque eles são mais caros; e nesse mundo obcecado por lucros, o que tem de storytelling-mentira por aí… já saí de padaria que me disse só usar farinha francesa vendo um caminhão descarregar sacos e sacos de farinha Renata #bemfeio). E se antes essa experiência só era acessível em cidades como San Francisco, Nova York e Berlim, que já possuem uma cultura de alimentação sustentável, ou possível em grandes e caros restaurantes, como o Alain Ducasse e o Arpège em Paris, o Eleven Madison Park em Nova York, o Sukiyabashi Jiro em Tóquio, ou mesmo o Soeta em Vitória, restaurantes cujos chefs conhecem os nomes das pessoas por trás de cada ingrediente que usam em seus cardápios, é uma alegria ver esse movimento em lugares bem acessíveis que passei a frequentar em São Paulo como o Quitanda, o Apfel, a Enoteca Saint Vin Saint, a Gelato Boutique, o Manjue {dois desses no guia Simonde dos restaurantes vegetarianos e vegetarian-friendly de São Paulo, que você confere clicando aqui}. Mas, é preciso outra mentalidade para frequentá-los: você não terá grandes e sofisticadas refeições nesses lugares, mas o fato de todos eles pensarem na alimentação de uma forma mais abrangente, mais sustentável, mais saudável (ou seja, sem químicas, agrotóxicos e aditivos), mais simples e mais humana, faz com que a gente releve o ambiente mais despretensioso e a falta de um sabor que, na grande maioria das vezes, só artifícios — ou muita gordura — conseguem produzir; é tão fácil colocar um pozinho cheio de sódio e químicas para deixar a comida sempre homogênea e mais saborosa, não? {Leia sobre essa discussão aqui: “O ‘natural’ nem sempre é mais saboroso”}

E falando em simples, saudável, sustentável, saboroso, (sexy, com os sócios bonitões, Charles, Thiago e Paulo) e TUDO ZERO GLÚTEN, essas são as ideias por trás da S Simplesmente, um híbrido de casa-loja de comidinhas na Vila Madalena (abre todos os dias, das 8h às 20h, com café da manhã aos sábados, feijoada vegana nos feriados e brunch num domingo por mês); e-commerce dos melhores pão sem glúten, pão vegano (sem leite ou ovos) e granolas da cidade; buffet para jantares e eventos (adoro ir a eventos quando sei que eles estão por trás das comidinhas, porque a gente come tudo sem culpa) e escola de alimentação saudável. E as receitas variam de semana para semana, já que eles trabalham com apenas três produtores locais e é só sabendo o que eles têm de fresco na época que o chef Thiago Medeiros cria as receitas, sempre acomodadas em vidros retornáveis que ficam à disposição nas geladeiras da casa para serem consumidas lá mesmo ou para serem levadas para casa (o que eu prefiro; apesar de gostar da ideia pelo aspecto da sustentabilidade, é uma experiência bem particular ter uma refeição inteira — sopa, salada, sobremesa, suco (olha os “S”s aí de novo 🙂 — naqueles potinhos de vidro com tampa, que você devolve para que eles os reutilizem; eles têm uma máquina especial para higienizá-los). Obs.: É tipo comprar os doces do Pierre Hermé e pegar sua caixinha de papel e comê-los com a mão sentado num banco da place Saint Sulpice (já fiz muito isso), outra é levar para o hotel e pedir para o serviço de quarto montar uma mesa, pedir um café ou um chá, e apreciar o melhor da pâtisserie num décor mais confortável, com pratos e talheres.

O BRUNCH S SIMPLESMENTE
A R$ 59 por pessoa, o brunch que acontece só aos domingos, uma vez por mês, das 10h às 16h, é uma delícia (nos sábados eles oferecem um café da manhã mais simples, mas também a preço-fixo, das 9h às 13h). No pequeno mas super satisfatório bufê (eu sempre fico imaginando o desperdício de comida que são esses enormes café da manhã, principalmente nos hotéis de luxo) você vai encontrar as ótimas granolas e pães — torradinhos e quentinhos — que fizeram a fama da casa (o sem glúten e o vegano; e não deixe de provar o maravilhoso pãozinho de polvinho com alho-poró); receitas como salada de quinoa com legumes, um salpicão (sem frango, claro) feito com batata assada em formato palha, cenoura, maçã, uva passa e maionese vegana (feita com tofu, alho e azeite; que também fica a disposição no bufê na opção com ), um “tender” feito com feijão branco, beterrada e batata doce processados e servido com chutney de fruta; doces como uma deliciosa tortinha de maçã sem glúten; além dos sucos e do café orgânico, em outra estação. E o melhor é que você não precisa fazer aquele exercício na maioria dos bufês de ficar imaginando o que vai com o quê, uma vez que você não conhece as receitas e as opções são muitas: pegue seus pães, encha os pratos e coma tudo com tudo, porque tudo combina. A única coisa de que não gostei foi o tamanho pequeno dos pratos: além de já começar com dois pratinhos, ainda tive de fazer mais duas viagens até o bufê para pegar as mesmas coisas. Outra coisa importante é checar a previsão do tempo: todas as mesas são externas, ou na varanda ou na área lateral da casa, e a vegetação e os poucos e frágeis ombrelones não são suficientes para proteger todos os clientes da chuva (todo mundo levanta correndo das mesas e se você encontrar um cantinho para seguir comendo, vai ficar com um braço molhado ou vai comer sua salada com um pouquinho de água de chuva). Já num dia lindo de sol, a qualidade e o sabor da comida aliados ao charme da casa me fazem pensar que é uma experiência quase perfeita para um domingo pós-academia ou corrida no parque.

Para acompanhar o calendário da Casa S, é só consultar sempre o perfil deles no Instagram, clicando aqui, e no Facebook, clicando aqui.

Agora preciso voltar para provar a feijoada vegana e atualizar esta matéria! :- )

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.