Gastronomia

Melting Pot

O Bom Retiro se formou nessa mistura de culturas que é um retrato de São Paulo. Agora passa por um revival com novos estrangeiros

por Rafael Tonon 20 Jul 2017 12:05

O Bom Retiro nunca negou seu potencial de receber todos os tipos de proletários e imigrantes. Desde que as ocupações chegaram na região da Chácara do Bom Retiro, no início do século 19, o bairro recebeu quem aportasse na metrópole paulistana: a possibilidade de trabalho nas indústrias que se instalaram ali e a proximidade do Centro logo fizeram da área um reduto de expatriados. Foi lá que nasceu a primeira hospedaria para estrangeiros – vindos principalmente da Itália – de São Paulo. Hoje, predominantemente ocupado por coreanos, bolivianos e judeus, o bairro passa por um momento de reinvenção, reunindo novidades que fogem do circuito tradicional da cidade, mas que merecem ser visitadas. Entre cafés, restaurantes de comida étnica e uma padaria/confeitaria coreana, selecionamos algumas novidades gastronômicas para você mudar o rumo e conhecer os tesouros que a capital paulista esconde longe das vizinhanças mais badaladas.

Pho.336
O restaurante temático é especializado em Pho, a sopa vietnamita que virou febre no mundo todo (consumida na Europa e nos EUA). Se lá no país asiático é mais apreciada no café da manhã, aqui satisfaz os estômagos famintos no almoço ou no jantar. O chef coreano Yong Shin se especializou na receita e agora reproduz aqui a sua versão do caldo de carne bovina com gengibre tostado, cebola e especiarias, que serve em três versões: carne, frango e frutos do mar.
R. Silva Pinto, 366 /Pho-366

Casa da Gabi
O nome pode indicar outra coisa, mas trata- se de um restaurante de comida coreana tradicional ou, melhor dizendo, caseira. Foge das receitas dos outros restaurantes do gênero – como bulgogui ou bibimbap – e tem gosto de comida de vó. O Casa da Gabi está para os coreanos assim como os izakayas (que se espalharam pela cidade) estão para os japoneses. É comida comfort: do K-pop chicken (frango frito beeem apimentado) ao toppoki (moti, os bolinhos de arroz, servidos como nhoque gratinado).
R. Lubavitch, 99 /casadagabi99

UM Coffee Co.
Se as melhores cafeterias da cidade estavam no eixo Pinheiros-Jardins, a UM quer mostrar que a região central também pode oferecer boas xícaras para os coffee geeks. O espaço, onde se torra os próprios grãos, oferece diversos métodos de preparo, do bom e velho espresso até os coados ou feitos na prensa. Os grãos vêm da fazenda que a família Um mantém em Minas Gerais (com exportação para a Coreia do Sul) e de outros produtores parceiros. Para comer, croissant e pão de queijo, além brunch, servido diariamente. Eles acabam de abrir a primeira filial, na Rua Iaiá, no Itaim.
R. Júlio Conceição, 553
@umcoffeeco /umcoffeeco

Fresh Cake Factory
É uma padaria/confeitaria coreana diferente de tudo o que você já viu… Num balcão feito de madeira, as iguarias ficam devidamente expostas para apreciação dos olhos – e depois do paladar. Entre os produtos há pães muito macios (muitos deles recheados, de curry com vegetais a frutas vermelhas) e deliciosos bolos de matchá e de batata-doce, para fugir do chocolate tradicional. Para acompanhar, vá no latte da casa: feito com leite e feijão azuki.
R. Prates, 585 /freshcakefactory

UMA FAMÍLIA JUDAICA NO BAIRRO
Quando o Bom Retiro ainda era mais conhecido como um reduto da comunidade judaica em São Paulo (antes dos imigrantes se mudarem para outros bairros, como Higienópolis e Jardins), a família Baruch chegou à cidade na década de 1980, vinda de Israel. Por aqui se estabeleceram no bairro e abriram, em 1991, a Delishop, delicatessen especializada em comida judaica que, desde sua inauguração, tornou-se sucesso no bairro. “Foi uma loucura! Na primeira semana tínhamos filas na porta”, relembra Nir Baruch, filho mais velho de Adi e Shoshana, que começou ajudando os pais no negócio. Era um restaurante bem familiar, sem plano de negócios, voltado a atender a comunidade local servindo clássicos das culinárias sefaradi (predominante entre os judeus do Norte da África e Mediterrâneo) e ashkenazi (mais presente nas mesas dos judeus do Leste Europeu e da Ásia).

Dona Shoshana, que sempre supervisionou a cozinha, é filha da imigrante Lina Levi, que deixou sua Bulgária natal primeiro para viver em Israel durante a Segunda Guerra, depois veio ao Brasil em busca de oportunidades de trabalho. Em 1975, Levi inaugurou a Casa Búlgara (que ainda funciona na Rua Silva Pinto, 356, também no bairro), uma portinha que se transformou num clássico da cidade ao servir salgados do país do Leste Europeu (como a bureka, a deliciosa rosquinha folhada). Nir, quando pequeno, preferia ver a avó cozinhar a jogar bola com os amigos e foi desenvolvendo o gosto pela gastronomia. Quando a Delishop precisou se expandir para atender uma clientela maior (formada até mesmo por coreanos que começaram a chegar no bairro), ele passou a ajudar os pais na cozinha e criar, lentamente, suas próprias receitas. “A culinária judaica é muito tradicional, então tive que ir bem aos poucos”, diz ele, que concebeu versões mais autorais para receitas como o varenik, uma massa cozida, a exemplo de um ravioli, que geralmente é recheado de batata. Na sua cozinha, recheou o varenik com costela bovina, ingrediente comum entre os judeus.

Hoje, mais afastado da rotina da Delishop (que ainda tem dona Shoshana de olho em tudo), Nir criou um serviço de catering para poder fazer suas receitas próprias, com foco na cozinha do Oriente Médio, sua especialidade. “As pessoas geralmente esquecem do tanto de influências que a culinária judaica sofreu. Quero mostrar isso”, conta. Ele continua fazendo todas as suas compras de ingredientes para seus eventos na feira do bairro, às quintas-feiras. “Devemos tudo ao Bom Retiro. Sem o bairro, a história da minha família seria muito diferente.”

Rafael Tonon

Rafael Tonon é jornalista e está sempre com o garfo em riste (e o copo na mão) para devorar novidades, sabores e tendências da gastronomia.