Gastronomia

Guaspari traz inovações e produz vinhos de qualidade em São Paulo

Vinícola aumenta sua linha após ser premiada na World Wine Awards

por Artur Tavares 25 Jul 2016 14:08

A pequena cidade de Espírito Santo do Pinhal, que fica próxima da divisa entre São Paulo e Minas Gerais, é lar de uma vinícola que vem encontrando seu lugar entre as produtoras de vinhos de alta qualidade no Sudeste do País. Neste ano, o syrah Vista do Chá 2012, da Guaspari, foi premiado com medalha de ouro no World Wine Awards, da tradicional revista Decanter, publicada em mais de 90 países.

Por trás da premiação, a vinícola da família Guaspari investiu em inovações na hora de produzir seus vinhos. A plantação foi feita em áreas onde o café era predominante. As uvas são submetidas a uma maneira diferente de poda, que atrasa a colheita para o início do inverno.

O expertise vem de pesquisas em Bordeaux, na França, e de profissionais que já passaram pela Robert Mondavi, Concha y Toro e Herdade do Esporão. Os vinhos chegam a ficar até 20 meses em barricas de carvalho francês antes de serem envazados, e daí podem permanecer na garrafa, sempre tampada com rolha portuguesa, até mais um ano antes de serem colocados à venda.

O resultado alcançado é inédito na produção de vinhos em São Paulo, que não oferece boas condições climáticas para a produção de uvas. Elas geralmente são colhidas no verão, mas no estado a estação é acompanhada de fortes chuvas, que prejudicam o crescimento das parreiras. Para driblar este problema, a Guaspari implantou um processo de dupla-poda que inverte o ciclo da videira, entregando seus frutos para a colheita apenas na estação mais fria do ano. “Com a transferência para o inverno, a colheita começa no final de junho, indo até o começo de agosto. É uma época de grande amplitude térmica na região, muito importante para o amadurecimento das uvas. É também uma época seca”, explica Marina Gonçalves, diretora executiva da vinícola e filha do patriarca da Guaspari.

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Aposta familiar

A família Guaspari, apaixonada por vinhos, trabalhava no ramo da mineração, e por isso sabia que o solo granítico de Espírito Santo do Pinhal favoreceria a produção de uvas. Eles se estabeleceram no interior de São Paulo há cerca de dez anos. Plantaram seis diferentes espécies. A syrah e a sauvignon blanc foram colhidas já em 2008, chegando ao mercado como safra de 2011. “Ter se permitido esperar foi o maior luxo do projeto da Guaspari. Já tínhamos vinho da safra de 2010, que optamos por não levar ao mercado. Só lançamos a safra 2011 porque já estávamos superconfortáveis e seguros da qualidade,” diz Gonçalves.

As uvas syrah e sauvignon blanc deram origem a uma linha que inclui outro tinto além do premiado Vista do Chá: o Vista da Serra, um rosé e um branco.

A Guaspari também planta pinot noir, cabernet franc, cabernet sauvignon e chardonnay. Os primeiros vinhos destas uvas ainda não chegaram ao mercado. “Quando fizemos o primeiro plantio, de sete hectares, nosso foco eram as variedades francesas. As uvas syrah e sauvignon blanc foram mais precoces na adaptação da poda”, afirma a diretora.
Marina Gonçalves conta que por trás da paixão por vinhos havia o espírito empreendedor. “Queríamos uma cultura que tivesse o potencial de transformar a região. Acho que o vinho é superforte nisso, porque traz também a valorização de terra, do turismo. Queríamos também renovar o ciclo de desenvolvimento dali, que passava por uma fase menos pujante em virtude da queda dos preços do café.”

Os profissionais que acreditaram no potencial da Guaspari vieram aos poucos de diversos lugares do mundo. “A primeira pessoa a chegar foi o Cristian [Sepúlveda], que é o nosso enólogo residente. Ele é chileno, tinha passado pela Concha y Toro, e já trabalhava com essa tecnologia de transferência da safra para o inverno no Nordeste”, diz.

Sepúlveda foi indicação de Murilo Regina, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), que foi para Bordeaux aprender a identificar potenciais de parreirais em áreas de altitude tradicionais para plantio do café. “O pessoal que veio depois, seja de Portugal ou dos Estados Unidos, chegou motivado em criar uma nova região produtora e fazer um vinho brasileiro de qualidade. Isso está sempre no discurso tanto do Gustavo [Gonzales, diretor de enologia], que veio depois de sete anos na Mondave, quanto do Paulo Macedo [agrônomo sênior], que é do Douro”, conta Marina.

Em 2011, a Guaspari chegou ao mercado com uma produção de 10 mil garrafas. Algumas delas, dos vinhos Vista do Chá e Vista da Serra, chegaram a ser vendidas na loja britânica Hedonism, considerada uma das melhores do mundo quando o assunto é a bebida. Os dois vinhos concorreram na mesma premiação do World Wine Awards. “Todo mundo ficou extremamente emocionado com a conquista. Foram dias muito felizes. É um reconhecimento internacional que reflete o que estávamos conseguindo no Brasil”, afirma Gonçalves.

Mudanças para o consumidor

Com a premiação da Decanter, os vinhos da Guaspari passaram a ser bastante procurados, mas desde o primeiro ano de existência a vinícola já estava presente em bons restaurantes, como Fasano, Maní, Piselli, Varanda, Eataly, Lasai e Ohka. “Houve um aumento enorme de demanda. Como hoje temos pouca quantidade, limitamos a venda dos vinhos. Só vendemos duas garrafas de Vista da Serra e duas garrafas de Vista do Chá por pessoa. Tivemos que fazer isso para pulverizar esses vinhos o máximo possível, para que mais gente venha a conhecer. Nos restaurantes também teve uma procura maior”, explica a diretora.

Gonçalves diz que a família sabia que seus vinhos causariam surpresa no mercado. “Viemos com essa confiança. Antes de lançar, convidamos alguns críticos, enólogos, sommeliers para visitar a vinícola, e nos questionávamos: ‘será que estamos perdendo um pouco a noção? Nosso vinho é tudo isso que achamos?’. Deles, obtivemos respaldo.”

Na visão da executiva da Guaspari, seus vinhos ajudam a cimentar um novo passo na produção nacional de vinho, que já vem se rejuvenescendo nos últimos anos. “Os grandes pioneiros da volta do vinho nacional à mesa foram os produtores de espumante. Acho que o brasileiro já teve essa quebra de preconceitos com o espumante. Se você fizesse um jantar na sua casa, provavelmente já serviria um espumante nacional, mas passaria para tintos ou brancos chilenos ou argentinos, não continuaria no vinho brasileiro.” Agora, seus tintos chegam para complementar a variedade na mesa.

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Próximos passos

A safra de 2015 resultou em 100 mil garrafas, que só chegarão ao mercado em 2019. Agora, a Guaspari lança uma linha de castas mais jovens, a Vale da Pedra. Ao mesmo tempo, a colheita de 2016 está em fases finais. As anteriores, conta ela, registraram uma clara evolução. “Como nosso desafio é ser um produtor de confiabilidade, que o cliente respeita, temos que saber que se o tempo não ajudar, o vinho não sai. Até agora não tivemos isso. Tivemos safras excelentes. A safra de 2015, com aquela falta de água no estado, mostrou-se excepcional. O clima superseco foi perfeito para o amadurecimento.”

Para 2017, há a introdução de um corte bordalês, vinho feito com a mistura de diversas castas – algo um tanto comum no Douro de Paulo Macedo, e o lançamento do primeiro chardonnay.

A vinícola ainda não está aberta para a visitação do público, mas planeja oferecer passeios para grupos de poucas pessoas a partir do ano que vem, ainda sem data inicial definida.

Raio-X da Guaspari
A reportagem conversou também com a enóloga Flávia Cavalcanti, que acompanha o dia a dia da produção dos vinhos da Guaspari em Espírito Santo do Pinhal. Graduada em Viticultura e Enologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, e com passagens pela Miolo, Perini e Herdade do Esporão, ela nos deu detalhes sobre a vinícola.

Como funciona a dupla-poda?
Dupla-poda é um sistema de inversão do ciclo da videira para permitir a produção de uvas no período de inverno, de forma a evitar os excessos de chuva e as elevadas temperaturas que ocorrem no verão. Assim, na época de produção, temos dias ensolarados e noites frias sem precipitação, com ótima amplitude térmica entre o dia e a noite e uma umidade de solo que permite um estresse hídrico moderado ideal para o bom amadurecimento das uvas para produção de vinhos de qualidade.

Nesse ciclo, as videiras brotarão por volta de 10 a 12 dias após a poda. A florada ocorre no final de fevereiro. O fechamento do cacho no final de março. A maturação inicia-se em meados a final de abril, para colheita em final de junho a início de agosto. Logo após a colheita a videira repousa em torno de 30 dias para iniciar um novo ciclo de formação de ramos.

Importância da dupla-poda na produção
Quando o foco é guarda e complexidade, a dupla-poda é fundamental. Porém, se o foco for produzir uvas para elaboração de vinho base para espumante, por exemplo, talvez se consiga bons resultados com o ciclo normal.

Vinhos de colheita tardia
Não é impossível fazer vinhos de colheita tardia utilizando dupla-poda.

Os barris da Guaspari
Trabalhamos com as três principais tonelarias francesas: Taransaud, François Frères e Ermitage, cada uma com a sua particularidade, desde localização do bosque à tostagem são detalhadamente pensadas e indicadas para determinados tipos de vinhos que elaboramos.

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Como é o Vista do Chá?
É um vinho muito complexo, com bom corpo e um perfeito equilíbrio entre álcool, taninos e ácidos. Apesar de toda estrutura que tem, apresenta um caráter muito elegante, sempre te convida à segunda taça.

E os outros vinhos da Guaspari?
“Cada vinho da Guaspari tem sua característica própria. O Vista da Serra 2012, também elaborado com a uva Syrah, recebeu medalha de prata na nona edição da Competição Internacional Syrah du Monde, organizada pela Associação Forum D’Enologie, na França, em 2015 e medalha de bronze no Decanter World Wine Awards 2016. É um vinho de cor forte e aroma profundo, com amoras e mirtilos em profusão.

A linha Vale da Pedra é produzido a partir de um blend de uvas de vinhas mais jovens e com o mesmo cuidado em campo e na vinificação que caracterizam os produtos da vinícola. O vinho tinto Vale da Pedra possui cor rubi, aromas de frutas vermelhas, tais como amora, framboesa e um leve toque de chocolate amargo. Já o vinho branco possui cor verde palha, aromas que lembram frutas tropicais, como abacaxi e maracujá, combinados a um leve toque de café verde.

O Sauvignon Blanc é marcado por aromas de frutas cítricas, tem um equilíbrio perfeito entre álcool e acidez, é consistente e untuoso. O Rosé apresenta uma perfeita combinação de aromas que oscilam entre os florais e notas de frutas vermelhas, como morango e cereja.

Guaspari nos orgânicos?
Gosto da filosofia dos orgânicos e biodinâmicos, porém ainda acho muito cedo para pensarmos em produzir de tal forma por aqui.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.

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