Gastronomia

Fitó é a nova sensação nordestina em São Paulo

Conversamos com Cafira Foz, dona do restaurante no Largo da Batata que tem sotaque do Piauí e preços acessíveis

16 Ago 2017 14:19
Cafira Foz, a Fitó. Foto por Ludmilla Bernard/Divulgação

Aberto há pouco mais de um mês, o restaurante Fitó tornou-se sensação para quem quer almoçar com qualidade e por preços acessíveis na região de Pinheiros. Empreendimento de Cafira Foz, uma piauiense radicada em São Paulo, o restaurante se destaca na Rua Cardeal Arcoverde, uma região tomada de escritórios de alto padrão, por oferecer pratos que não chegam aos R$ 30. E o melhor: eles são deliciosos.

De segunda à sábado, o Fitó serve pratos como o Arroz Maria Isabel (arroz com carne-de-sol da casa em cubos, acompanhado de macaxeira cozida, legumes e vinagrete de tomates); costelinha de Porco (temperada com especiarias e pincelada com geleia de cajá, acompanhada de legumada do sertão); e o Carneiro no Leite de Coco (pernil marinado e depois cozido no leite de coco fresco e caseiro, acompanhado de cuscuz de milho com manteiga da garrafa e legumes assados). Todos são reinterpretações do que Cafira Foz aprendeu em sua terra natal, com um quê a mais: “Eu trabalho com produtos que são muito possíveis no dia a dia de todo mundo. Eu não tenho a formação clássica de cozinha. Os meus instintos são muito do que eu aprendi em casa e com as pessoas que conheci ao longo da minha vida. Essa troca com o outro, para mim, é fundamental. A minha linha de cozinha vai por aí”, conta a empresária.

Cafira saiu do Piauí aos 19 anos para cursar faculdade em Florianópolis. Longe de casa, manteve seus pratos preferidos em sua rotina. Quando veio a São Paulo, conheceu seu marido e sócio, Thomaz. Em uma viagem à Ásia, se apaixonou pela gastronomia local: “Saí do meu trabalho, fizemos uma viagem internacional, e nela conheci a cozinha tailandesa, e também a vietnamita. Fiquei apaixonada porque eram os mesmos ingredientes que faziam parte da minha vivência, só que usados de formas diferentes. Entendi o que é elevar o alimento ao máximo. Eu já tinha 27 anos, e foi o Thomaz que teve esse olhar de que eu poderia cozinhar como maneira de ganhar a vida. Foi a partir desse olhar que passei a ser mais solidária comigo. Então, passei três anos estudando em casa.”

Instalar o Fitó em uma região que historicamente recebeu muitos nordestinos incentivou Cafira não apenas a manter a culinária tradicional no cardápio, mas oferecê-los a preços acessíveis: “Os clientes que vêm no Fitó viram confabulam comigo e se tornam meus amigos. Essa coisa do valor faz com que as pessoas retornem. Hoje em dia, nós só falamos em ladrões e em roubos. Não se fala de outra coisa no Brasil, na atual situação. Ter um lugar em que você come, chega a conta e se sente valorizado, respeitado, é importante para os clientes. A questão não é não gastar. Todo mundo gastar. É saber porque estou gastando.” Ela conta que, mesmo com a gentrificação recente que a região do Largo da Batata passou, “ainda há uma resistência, há muitos nordestinos morando aqui. Se você for ali na praça, o forró é uma doideira, tem direto.”

Sem afetação, os pratos são feitos com ingredientes acessíveis a todos: “Aqui, eu tenho coisas que todas as pessoas podem ter em casa. Uso cortes de segunda, frango, pernil. Não tem nada demais. O cardápio é simples, mas tudo tem preparo demorado. A carne de sol leva seis dias para ficar pronta, e a paçoca mais dois. A costelinha fica marinando 24 horas no tucupi, e depois em outra infusão. Para finalizar, cozinhamos 40 minutos e depois assamos 15 no taperebá. Mesmo simples, têm muitas técnicas para tirar o máximo dos ingredientes.”

Em breve, o Fitó vai abrir também para o jantar: “Começamos só com o almoço porque eu não tinha condições físicas e psicológicas de abrir dois turnos. Eu estava muito insegura, mas comecei a controlar esse medo, e meus clientes começaram a pedir o jantar. Hoje, 50% dos meus clientes são retorno. Eles querem vir para o happy hour, querem trazer a família. Por enquanto vai ser o mesmo cardápio, mas em janeiro devo vir com pratos do dia diferentes.” Nos domingos, folga para todo mundo: “acho que não vou abrir nunca. Não quero ser a patroa que faz os funcionários trabalharem todos os dias, pedir que venham no domingo para dar folga na quarta-feira. As pessoas têm família, coisas para fazer fora daqui.”

No Fitó, todas as funcionárias são mulheres, à exceção de Thomaz e do irmão de Cafira, que veio ajudá-la. “Agora temos o Mariano, que é um homem trans. O staff era só feminino, mas passou a ser acolhedor. Ela entrou aqui como Ma e está fazendo a transição. Mas outro homem não pode. A Karen, nossa hostess, é uma mulher trans. É a cara do Fitó. Os clientes amam a Karen, ela é uma mulher incrível.”

Fitó
Rua Cardeal Arcoverde, 2773 Pinheiros
(11) 3032-0963

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