Gastronomia

Em Nome do Malte

O empresário José Roberto Briguenti construiu, no interior de São Paulo, uma catedral para abrigar sua coleção com mais de 20 mil garrafas de uísque

9 Nov 2017 13:17

Por Marilia Levy

Em sua propriedade em Itatiba, a 70 quilômetros da capital paulista, o empresário José Roberto Briguenti abriga a maior coleção de uísques da América Latina, com mais de 20 mil garrafas da bebida. A maioria são autênticos scotchs, irish e bourbons americanos, mas há rótulos das mais exóticas procedências como Quênia e Rússia. Segundo o Guinness, o livro dos recordes, seu rival é o português Alfredo Gonçalves, residente em Lisboa (ele já visitou o acervo de José Roberto e vice-versa), que em 2005 declarou ter 10 mil frascos. Mas Briguenti não tem interesse no “tira-teima” para levar o título de maior colecionador de uísques do mundo. “Devo ter mais garrafas do que ele”, diz despretensioso.

Leia-se por garrafas, miniaturas, raridades, materiais como cerâmica, porcelana e o tradicional vidro e modelos dos mais inusitados. A mais antiga de sua coleção data de 1806. Dos itens mais peculiares está um jogo de xadrez com vidros de bourbon da marca Old Crow Kentucky, cada um com a aparência das peças do jogo de tabuleiro, como rei, bispo, torre e peões. Outra particularidade da compilação são as mais de 130 garrafas com formato de carros, caminhões, ônibus, bondes e trens. Há também unidades com características de celebridades e políticos – de Elvis Presley a Marilyn Monroe, passando por Muhammad Ali – e outras, delicadas, em forma de caixinhas de música.

Dono de uma das maiores empresas de terraplanagem do País, José Roberto já compilou outros objetos como jarras de cachaça, xícaras e lápis, mas há 20 anos adquiriu uma coleção com vários rótulos de uísque do colecionador Rubens Didone. Começou, então, sua coleção, que hoje reside em uma verdadeira catedral, decorada com madeira de demolição e vitrais antigos. A propriedade rural de Briguenti, no interior de São Paulo, fica em um terreno que ocupa 30 mil metros quadrados de Mata Atlântica preservada e é o refúgio do empresário, que visita o local todos os fins de semana. Às vezes sozinho, às vezes acompanhado dos três filhos e netos. Lá ele construiu um prédio com ares de igreja para hospedar sua coleção.

O santuário bombou nas redes sociais e recebeu o título de Catedral do Whisky. O templo conta com 300 metros quadrados e um mezanino, com nove andares de prateleiras iluminadas e envidraçadas, de madeiras nobres como pinho, cedro e cajazeira, onde o colecionador exibe suas preciosidades. A decoração do espaço não fica aquém da importância da coletânea. Altares barrocos do século 17 trazidos de Minas Gerais, cálices, imagens sacras e lustres de cristal resgatados de demolições de hotéis do centro de São Paulo e da mansão da família Pignatari. Tudo ali é carregado de história, como os uísques canadenses acondicionados em latas de metal e outros envasados em vidros de remédio, com direito a receita assinada pelo médico no rótulo, para burlar a Lei Seca que vigorou na América do Norte nas décadas de 20 e 30. Na área vip do mezanino há inúmeros decanters e também luxuosas edições numeradas, como as feitas sob encomenda para o hotel parisiense Maxim e para a marca londrina Burberry. Algo nos diz que as missas rezadas ali são pra lá de agradáveis…