Gastronomia

Cha Cha: Um Charlô à la Nova York

Shoichi Iwashita visita nova deli aberta no coração financeiro de SP

por Shoichi Iwashita 5 Abr 2017 10:31

Os paulistanos na faixa dos 40 anos de idade lembram-se do Charlô Whately não só como o nome por trás do Bistrô Charlô, o bom e longevo restaurante na Barão de Capanema nos Jardins, mas também do homem bem nascido e de olhos azuis que acabara de voltar de Paris e começou a vender sob encomenda incríveis patês à la française e que se tornou o banqueteiro de algumas das festas mais elegantes de São Paulo. E o Cha Cha, delicatessen que abriu a uma quadra da parte mais corporativa da Faria Lima (estrategicamente a 150 metros dos escritórios de Google, Yahoo, Facebook e Instagram), não poderia ser mais diferente do que o Charlô representa no nosso imaginário. Menos Paris, mais Nova York; menos pompa, mais praticidade (e uma delicatessen, no sentido americano da palavra, com preço de restaurante; por isso, vá pelo almoço executivo a R$ 62 + serviço de 10%, com saladinha + prato + sobremesa).

Aberto todos os dias das 7h às 20h e sábados, domingos e feriados, das 8h30 às 18h (uma pena não fechar à meia-noite ou ser 24 horas), o Cha Cha oferece não só comidinhas e pratos bem preparados e saudáveis (de sanduíches, omeletes e quiches a peixes com guarnições a escolher; só senti falta de mais opções vegetarianas ou veganas), mas também saladas frescas (abobrinha, brócolis com abóbora, grão de bico com bacalhau) que você pode pegar tanto na geladeira em porções individuais ao estilo grab-and-go quanto pedir no balcão ou na mesa para comer lá mesmo. O que é um prazer: no térreo de um edifício comercial, tem manobrista na porta (a R$ 23), pé-direito alto com uma enorme parede de vidro (ou seja, muita luz natural), mesas comunitárias ou individuais com cadeiras e sofá, e ainda um balcão de bancos altos com vista para a rua, único lugar com tomadas para conectar os gadgets (eles deveriam ter previsto tomadas em todas as mesas, né, já que é um lugar perfeito para fazer reuniões fora do escritório ou tomar um café — grãos Suplicy — e trabalhar).

E se tudo deveria ter pensado para ser o mais rápido possível (ainda mais numa região onde as pessoas estão sempre correndo), a velocidade do serviço tanto no café da manhã (incluindo quando a casa está vazia) quanto no almoço pode decepcionar. Por isso, se estiver com pressa, é melhor comprar para levar. Em compensação, as sobremesas do Cha Cha são um dos pontos altos: se o bolo de amendoim (com pedacinhos de amendoim na massa) com doce de leite é bom, o cheesecake (servido do jeito que eu gosto, com a calda num potinho à parte; eu gosto mais da massa do que das caldas) e a torta americana (uma torta densa de mousse de chocolate) são algumas das mais bem preparadas sobremesas da cidade. Essas, sim, herança do Charlô que vendia patês mas que começou a vender um simples mas incrível bolo de nozes lá nos anos 1980.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.