Gastronomia

Cannolo: O doce fálico e recheado inventado nos haréns

A história de uma iguaria que hoje é famosa no mundo inteiro pela culinária italiana

por Shoichi Iwashita 21 Jul 2017 12:00

“Leave the gun, take the cannoli”. Esta frase, dita por Clemenza ao seu capanga quando ele acaba de matar o motorista traidor de Vito Corleone no primeiro filme da trilogia O Poderoso Chefão, retrata bem como uma sobremesa pode representar uma origem (não se esqueça de que a máfia também é uma invenção siciliana). E o cannolo — “cannoli” é o plural — é delicadeza pura. Massa fina e crocante (com vinho branco seco entre os ingredientes da massa) em formato de tubo e recheada — na hora, nas melhores pasticcerie — por um leve creme de ricota de ovelha misturada com pedacinhos de frutas cristalizadas (receita original) ou gotas de chocolate (inventada em Messina), o cannolo, junto com a cassata (outra sobremesa de influência árabe), conquistou o mundo, mas é símbolo da Sicília, esta que é a maior das ilhas do Mar Mediterrâneo.

ESPOSAS ÁRABES ENTEDIADAS LEVAM A RECEITA PARA OS CONVENTOS
Suas origens remontam à Roma Antiga com Cícero — “tubus farinarius dulcissimo edulio ex lacte fartus”. Mas é quando a ilha é ocupada pelos muçulmanos (a Sicília seria um emirado por quase duzentos anos, entre os séculos 9 e 11; mas ainda no século 13, os muçulmanos eram maioria na ilha) que as muitas mulheres do emir, para passar o tempo no harém, pegam essa antiga receita e a reinventam como uma homenagem aos homens (já ouvi histórias parecidas sobre os formatos da esfirra e do quibe…). Com o fim do domínio árabe (chegam agora os normandos), muitas das esposas vão parar nos conventos levando consigo a receita, que passa a ser confeccionada pelas irmãs para os festejos do carnaval, como símbolo da fertilidade. E o resto é história. Do carnaval, o cannolo passa a ser consumido o ano todo, e com a emigração italiana para os Estados Unidos no começo do século 20, a receita se transforma, para os imigrantes sicilianos em busca das riquezas da América, numa saborosa lembrança de suas origens mediterrâneas.

CANNOLI DE TODOS OS TAMANHOS
E, assim como as massas italianas, são vários os “calibres” do cannolo: tem os gigantes que chegam a ter 20 centímetros de comprimento por 5 de diâmetro (tem maiores, mas só em ocasiões especiais), mas também os cannulichi, do tamanho e espessura de um dedo, geralmente encontrados em Palermo. As boas pasticcerie recheiam o cannolo na hora para que a umidade do recheio não nos tire o prazer da crocância da massa (e do contraste das texturas). Por isso prefira esses aos cannoli já prontos nos balcões e coma com as mãos sem medo de se lambuzar.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.