Gastronomia

Bistrô com a melhor vista do Centro

Shoichi Iwashita visita o Esther Rooftop, na Praça da República

por Shoichi Iwashita 15 Fev 2017 09:46

A grande questão seria saber como conseguir se sentar sempre em uma daquelas três mesas para duas pessoas que ficam coladas no vidro do terraço com vista. Mas não tem jeito, tem de chegar cedo e tentar a sorte, já que no Esther Rooftop, eles não fazem reservas. Mas, mesmo se sentando no salão interno (não deixe de frequentar o espaço para fumantes, no terraço, aberto e com vista), só pela arquitetura e pela história já valeria a viagem: inaugurado em 1938 (!) e ocupando o décimo primeiro e último andar do primeiro edifício moderno-racional-funcional-corbusiano da cidade de São Paulo — e do Brasil —, projetado pelo arquiteto paulistano Álvaro Vital Brasil, o Edifício Esther (que tem lojas, escritórios e unidades residenciais, onde moraram Di Cavalcanti e Marcelino de Carvalho; tinha até uma boate no subsolo frequentada por intelectuais e pela alta sociedade paulistana nos anos 1940 e 1950) é uma das obras fundamentais da arquitetura moderna brasileira.

A vista para a arborizada Praça da República em frente, especialmente quando o tempo permite que eles abram a cobertura do terraço, além de ser agradável, dá para outros dois edifícios icônicos da cidade: o Edifício Eiffel, de Oscar Niemeyer, do início dos anos 1950, do outro lado da praça, e a antiga escola Caetano de Campos, inaugurada em 1894, onde funciona hoje a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. E, apesar de o edifício não estar no seu melhor estado de conservação, é interessante observar que a decoração do Esther Rooftop, formado por um salão e um terraço com um bar conectando os dois ambientes, segue o conceito modernista — sofás de couro caramelo no salão e de tecido turquesa e almofadas no terraço, mesas com tampo de mármore, cadeiras e luminárias de design — sem deixar de ser elegante, sem destoar do edifício e do seu entorno.

No cardápio, comida francesa de bistrô com toques orientais, bem feita, sem grandes pretensões gastronômicas (o restaurante é de propriedade do chef-et-boulanger já quase brasileiro, Olivier Anquier — que morava no apartamento onde está hoje o restaurante —, seu irmão Pierre e o chef Benoît Mathurin; todos franceses). E, apesar das muitas carnes (tutano, barriga e bochecha de porco, cordeiro, rins e timos, frango, peixes e frutos do mar), dá para ter uma refeição completa vegetariana, começando, por exemplo, com um queijo tipo camembert brasileiro assado com mel e azeite de flores, e seguindo para o risoto de cogumelos e parmesão com pesto de salsinha ou o prato de legumes orgânicos com purê de cenoura e avelãs torradas. Só deixe espaço para as sobremesas. É nesse quesito que o chef se destaca, com o divino brioche com calda de caramelo, maçãs cozidas e sorvete de caramel au beurre salé (feito pela gelateria Dri Dri). É imperdível. No almoço, o menu executivo com três etapas a R$ 69 é um motivo perfeito para comer bem e explorar essa região da cidade rica em história e arquitetura, cheia de lugares que a gente ama (você está do ladinho do Edifício Itália, do Copan, do Café Floresta, do Bar da Dona Onça, da Avenida São Luís, da Galeria Metrópole, da Biblioteca Mario de Andrade, da Livraria Francesa…).

De resto, um restaurante que é capaz de trazer frequentadores do circuito Jardins-Itaim para o centro, para a Praça da República, em frente à saída de uma estação de metrô da linha vermelha, só pode ser muito bem vindo. Se vier de carro, o estacionamento do prédio tem entrada pela Rua Basílio da Gama. Se vier de metrô, procure pela saída para a Sete de Abril que dá exatamente em frente ao Edifício Esther (você não vai andar nem três metros). Tem maior luxo para um restaurante que ter um metrô na porta?

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.

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