Gastronomia

A Natureza das Coisas

Empresário de sucesso, expert em family office, Renato Bicudo divide seu tempo entre São Paulo e Campos do Jordão. No interior, ele criou o Campos de Oliva, um dos melhores azeites artesanais brasileiros

6 Set 2017 12:30

Por Daniela Pizetta

Paulistano e um dos menores produtores de azeite de oliva orgânico do Brasil, Renato Bicudo é, sem dúvida, um dos segredos mais bem guardados da metrópole – até agora. Divide seu tempo entre a cidade e o campo. Mas é no seu sítio, localizado entre as montanhas do interior de Campos do Jordão, que gerencia pessoalmente a produção do azeite que leva o nome da sua propriedade, Campos de Oliva.

Renato é genuinamente um cara gente fina, daqueles de astral leve, sorriso nos olhos, amigo dos amigos, observador. Sou suspeita, porque é meu amigo há mais de 15 anos. Faça chuva ou faça sol, ele pega a estrada às sextas-feiras e dirige por aproximadamente duas horas de São Paulo até o Campos de Oliva. O respeito que tem pela natureza dita seu lifestyle. Iogue e vegetariano há mais de três décadas, Renato não tem nada de bicho-grilo. É formado em agronomia e administração pela Universidade Estadual do Paraná com MBA pela Maryland University. Morou oito anos nos Estados Unidos e já esteve em 23 países. Expert em family office – foi gestor do escritório da família Rolim –, já atuou como CFO da renomada Fazenda da Toca. Atualmente, divide seu tempo entre São Paulo, onde mora durante a semana e atua como consultor financeiro, e seu sítio, a 200 quilômetros da capital.

Seu avô, médico, militar e ex-prefeito de Campos do Jordão, comprou a propriedade em 1938. Renato e seus irmãos frequentavam o sítio desde que nasceram. “Meu avô era um empreendedor e um grande visionário”, diz. “Nunca acreditou nos seus ascendentes portugueses. Eles diziam que nosso clima tropical não era apropriado para o cultivo de oliveiras. Em certas regiões, como esta, clima e solo são perfeitos.” Em 2014, Renato colheu sua primeira safra. Até hoje ele ri, lembrando que o resultado foram apenas 4 litros de azeite. Mas a qualidade daquele líquido espesso o fez seguir em frente, aumentando a produção hoje para 100 litros/ano, dos quais 20 são da categoria novello, um tipo extremamente fresco e não filtrado – ele sai da prensa diretamente para a garrafa. “Ele é puro, aromático e picante”, define Renato. Poucos amigos tiveram o prazer de receber em suas casas garrafas do Campos de Oliva Novello, manualmente envasadas e etiquetadas.

Quando chega a época da colheita, em março, Renato costuma chamar os melhores amigos para participar do processo. O trabalho é pesado e manual, porém o prazer em finalizar o dia sentindo cansaço físico, mas com a alma leve, a cabeça fresca, o espírito em harmonia com a natureza e assistindo ao sol se pôr, é incomparável. Este ano, no entanto, ele contou com um plano B. Convidou voluntários de um ashram, templo indiano gerido por um casal de primos seus, a poucos metros de sua propriedade. Ou seja, o azeite prensado desta safra teve participação de monges. E eu fiquei imaginando todos aqueles seres puros e voluntariosos chegando cheios de amor e luz para três dias de colheita. Ao final, todos os voluntários receberam litros do azeite como forma de agradecimento. Pergunto se vai repetir o processo ano que vem. “Acho que vou chamar somente mulheres, são muito comprometidas, deixariam tudo ainda mais lindo.”

Renato tem poucos funcionários na fazenda – ele mesmo põe a mão na massa, digo, no campo. Sempre com a casa cheia de amigos, adora engajar todos a colaborarem nas atividades. Recentemente recebeu o chef William Ribeiro, ex-Bossa e atual Seen, no hotel Tivoli Mofarrej, que cozinhou apenas com produtos locais. Tudo gira em torno das estações, sempre têm sementes para plantar, produtos para colher ou até mesmo, para os metidos a chef, um fogão a lenha para pilotar pratos que podem ser criados apenas com ingredientes extraídos da terra naquele momento.

Pergunto a Renato qual seu primeiro sentimento ao chegar ao Campos de Oliva às sextas-feiras. “Inexplicável”, ele diz, mas logo encontra palavras que possam expressar. “É como se eu tivesse nascido e vivido aqui a vida toda. Já não me impressiona mais a natureza, é como se eu fizesse parte dela. Também adoro observar o que acontece com meus amigos aqui, nitidamente suas feições, humor e estado de espírito se transformam, e isso é magico. Sem TV ou celular, a paz e a tranquilidade tomam conta. Essa febre de compartilhar cada momento na web é o que ainda causa um ‘estresse’ por aqui, mas como o objetivo é encontrar este equilíbrio, temos internet via satélite para todos.” E eu digo em meio a risadas: “Obrigada, senhor!”

Sorte mesmo de quem pode frequentar a propriedade a convite do amigo e, literalmente, fazer uma imersão em seu lifestyle. A casa que serve de moradia aos fins de semana fica no topo de uma montanha com vista para um vale, coberto por mata verde. Longe da estrada, não se ouve barulho algum, a não ser pássaros, macacos e seus três cachorros, que correm soltos pela propriedade. Uma segunda casa está hoje disponível para locações temporárias no Airbnb. Mas o melhor de tudo é que quem a aluga ou a visita pode usufruir da horta orgânica, das inúmeras trilhas e da pequena cachoeira que fica a menos de 100 metros da casa. E o céu estrelado quando a noite cai, ah! Esse sim é o sentimento de estar em um verdadeiro templo.

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