Gastronomia

A evolução de um Grand Cru

Enólogo-chefe da Almaviva, Michel Friou lança safra 2014 no Brasil

por Artur Tavares 14 Dez 2016 09:13

Considerada a vinícola que colocou o Chile no mapa mundial dos vinhos, a Almaviva está lançando no mercado brasileiro sua safra 2014. Trata-se de um vinho jovem, porém com muita presença, resultado de uma evolução de 18 anos das vinhas presentes nos 85 hectares aos pés da Cordilheira dos Andes. Em evento realizado em São Paulo, a Carbono conversou com o enólogo-chefe da Almaviva, o francês Michel Friou, e participou de um comparativo entre a safra atual e aquelas de 2009 e 2001.

Fruto de uma parceria entre a vinícola francesa Baron Philippe de Rothschild e a Viña Concha y Toro, a Almaviva existe dentro de 85 hectares da fazenda da vinícola chilena em Puente Alto. Lá, foi criado um ambiente de produção que remete aos grandes Bordeuax. Por isso, a Almaviva tem uma maioria de Cabernet Sauvingnon em sua mescla. Em diferentes anos aparecem uvas Carmenère, Cabernet Franc, Merlot e Petit Verdot.

“Quando a Almaviva foi criada, a intenção era claramente produzir um grande vinho aos modelos dos chateaux franceses. A princípio, a influência francesa foi mais marcante no estilo do vinho, mas associado ao nosso terroir bem particular, desconhecido para a produção de algo parecido com os produtos de lá. Através dos anos temos evoluído, aprendido muito sobre as condições do local, especialmente na questão do manejo das uvas. Ficou claro, portanto, que era necessário mudar a maneira de produzir para nos adaptarmos às condições chilenas”, explica o enólogo-chefe.

A principal característica discrepante entre a Cordilheira dos Andes e Bordeaux é amplitude térmica. Em Puente Alto, a amplitude chega a 20º na máxima do dia e a mínima da noite. Da experiência francesa veio um tanino mais fino, marca registrada dos clássicos. Do novo mundo, a força das uvas. “O terroir é muito mais tardio, a colheita é feita quando as temperaturas já começam a cair. Isso significa que temos uma maturação muito lenta e progressiva, mantendo uma certa frescura e acidez nos mostos. Nos beneficiamos da altura da Cordilheira dos Andes, com dias de bastante sol devido à altitude, mas com noites em que o vento sopra fresco e as temperaturas caem.”

Dos primeiros anos à adolescência
Lançada em 1998, a safra de 1996 da Almaviva causou frisson imediato entre os críticos e apaixonados por vinhos, que chancelaram a vinícola em seu propósito de criar um Grand Cru em terras sul-americanas. Do primeiro ano para cá, a Almaviva mantém a tradição de lançar suas safras dois anos após suas colheitas. No encontro com Friou, realizado no restaurante paulistano Dalva e Dito, o enólogo mostrou as de 2001 e 2009, colocando-as em comparação com o lançamento deste final de ano.

A primeira delas ainda tem sabores jovens, mesmo 13 anos após envazada. A safra de 2009 representa um ano especial para a Almaviva, em que o clima foi extremamente favorável com a produção. Neste ano, a colheita chegou ao mês de junho, e mesmo assim as uvas foram consideradas ideais. Por fim, a safra 2014 tem a maior graduação alcoolica, 15% por volume, com a suavidade de um vinho jovem e notas mais marcantes, produto do envelhecimento das vinhas no solo de Puente Alto. “Penso que todos gostariam de deixar os vinhos guardados por mais tempo. Com certeza, provar a safra de 2014 não é como provar a safra de 2009. Há claramente uma experiência distinta em experimentar um vinho guardado há quinze, vinte anos, quando se trata de complexidade e características. Temos a sorte de que alcançamos evoluções nos últimos anos, que garantem em acessibilidade e qualidade em nossos vinhos novos. Eles podem ser apreciados jovens com muito prazer, mas obviamente gostaríamos de poder valorizar melhor o produto”, diz Friou.

A Almaviva no futuro
Embora ainda não tenha certificação orgânica, a Almaviva já caminha para uma maneira menos nociva de produzir suas uvas. Ao longo dos últimos anos, a área cultivada de maneira orgânica passou de 40 para 60 hectares em Puente Alto. Friou diz que até que toda a Almaviva torne-se responsável pelo meio ambiente ainda demorará devido aos processos envolvidos na evolução. “Estamos evoluíndo neste conceito, que na verdade é um retorno, uma volta aos processos mais naturais. Ainda temos que convencer muita gente de como é benéfico utilizar menos produtos químicos. Estou convencido que tudo vai para esta direção e que cada dia mais e mais veremos produtos orgânicos e biodinâmicos.” O enólogo-chefe ainda faz um apelo: “Todas as grandes e clássicas vão pensar sobre isso e experimentar em suas produções. Tem que haver consciência de que existe uma responsabilidade com o futuro e as próximas gerações.”

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.