Gastronomia

À Boca Pequena

Inspirados na época da proibição norte-americana às bebidas alcoólicas, os speakeasies continuam a ganhar força em SP

por Artur Tavares 3 Ago 2017 11:13

Escondidos atrás de portas e cortinas pretas, acessados por escadas discretas e pouco anunciadas, protegidos pelo isolamento acústico e a discrição dos clientes, os speakeasies são bares destinados para poucos: eles têm ar clássico, são intimistas, buscam um público com bom gosto e paladar refinado. Recentemente, São Paulo ganhou dois novos estabelecimentos do gênero, uma tendência que parece crescer na cidade. O Raiz fica no subsolo do Jacarandá, enquanto o Câmara Fria é um anexo do Original. Mais antigo, o pioneiro SubAstor, debaixo do Astor, trouxe o conceito para a cidade em 2009. Se na época da proibição às bebidas alcoólicas nos Estados Unidos (entre 1920 e 1933) eles serviam para trazer alento àqueles que não ficavam sem um drinque ao cair da noite, hoje eles servem para trazer uma clientela nova a estabelecimentos já reconhecidos.

Um dos bares mais tradicionais de São Paulo, o Original, completou 20 anos em 2016. Fruto de outra época na cidade, ele é um boteco clássico, que trabalha com chope e cervejas tradicionais. Já o Câmara Fria, aberto em parceria com a cervejaria Wäls, aposta em um conceito novo para o local. “O público do Original é extremamente democrático, tem a característica do botequim. Já o Câmara tem uma conexão maior com um público mais jovem, que gosta de cerveja artesanal”, explica Ricardo Garrido, sócio-proprietário da Cia. Tradicional de Comércio, grupo que administra o bar. Rótulos da cervejaria Urbana, como a premiada Gordelícia, também figuram por lá.

Desde que foi aberto, o Jacarandá recebia em seu subsolo shows intimistas. Com o tempo, o bar deixou esse aspecto de lado e acabou fechando o espaço. Com a mudança de direção no restaurante, em setembro passado, criou-se ali um speakeasy. “Sempre gostei do ar misterioso do bar, desse conceito que lembra a época da lei seca nos Estados Unidos. Não queria que o espaço ficasse fechado ao público. É um desejo antigo, desde que frequentava a casa como cliente, trazer essa experiência diferenciada, oferecer um bar que trouxesse um mix de boa comida, bons drinques e boa música. Tudo isso
em um espaço aconchegante, com uma atmosfera que te transporta no tempo”, explica Milton Freitas, novo dono do local.

Assim como acontece entre o Câmara Fria e o Original, os cardápios do Jacarandá e do Raiz são diferentes. “Os drinques autorais do bar não são servidos no restaurante. Além disso, apesar de oferecermos alguns pratos da cozinha que já são elaborados por lá, a apresentação é outra. Destacamos os minipratos, porções menores do menu, perfeitos para comer de forma mais descontraída, em pé, no balcão e servidos exclusivamente no bar.”

Aberto em 2009, o SubAstor foi um dos grandes responsáveis por trazer a onda da coquetelaria para São Paulo. Ele fica na antiga adega do restaurante Astor. Até hoje, oito anos depois, muitas pessoas nem sabem o que está debaixo da escada no canto esquerdo do Astor paulistano. “É muito comum ver gente curiosa, perguntado o que existe atrás das cortinas”, afirma Bruno Grinberg, diretor de operações do bar. Mesmo tendo caído no gosto dos paulistanos, até hoje o SubAstor atrai uma clientela diferente de seu andar superior. “O Sub atende uma nova gama de clientes. Este foi mais um benefício de ter o Sub dentro do Astor, e não fora, em outro espaço.” Vale ressaltar que, em meados de 2016, uma filial do SubAstor foi aberta no Astor do Rio de Janeiro, em Ipanema. Se você não sabia, provavelmente foi porque eles quiseram assim.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.