Design

Uma Gota no Oceano

O designer australiano Brodie Neill abre um novo caminho para que o design seja aproveitado para trazer maiores mudanças para o mundo

por Athena Advisers 19 Dez 2017 10:34

“A responsabilidade é de todos nós e é hora de repensarmos nossas relações com o plástico, o meio ambiente e o lixo”

Somos ondulações no oceano. Qualquer ação que realizamos pode ter consequências incalculáveis. Isso é chamado de Efeito Borboleta. Essa foi a mensagem subjacente por trás da recente instalação multissensorial do designer australiano Brodie Neill, encomendada em homenagem ao Festival de Design de Londres de 2017 para transformar o lobby do hotel ME, projetado pela Foster & Partners. Intitulado “Uma Gota no Oceano”, a obra foi um aceno para o impacto global de sua obra Mesa Gyro, lançada durante a Bienal de Design de Londres no último outono. Juntas, essas obras abordam o relacionamento do Homem com o oceano, aumentando a conscientização sobre o grande problema que enfrentamos do plástico que engolfa e polui cada vez mais nossas águas. Feita de meio milhão de pedaços de plástico descartados como lixo, a Mesa Gyro jogou luz sobre o impacto negativo do Homem sobre nosso mais valioso recurso, o planeta, e nos deu uma perspectiva sobre como podemos repensar nosso lixo. Mas podemos, como indivíduos, realmente fazer a diferença? Conversamos com Brodie, em seu estúdio no leste de Londres, para saber como um designer está enfrentando o problema.

O que o inspirou a começar a usar o design para enfrentar problemas globais?
A quantidade de plástico em nossos oceanos é uma grande problema. Ele tem uma função prévia, é descartado, e acaba no nosso meio ambiente. Então, comecei identificando-o como um material útil. Vivemos em um mundo que está continuamente acumulando lixo, que sufoca nossas praias e hidrovias. Já trabalho há algum tempo com materiais recicláveis, já fiz feltro de garrafas PET recicladas e peças como a Remix, feita de camadas de materiais recolhidos de ferros-velhos, então, este é o pano de fundo para tudo isso. Sempre me senti inspirado a transformar materiais descartados em algo precioso.

Houve um momento crucial para você?
Começou com a National Gallery de Victoria, onde eu estava exibindo minha obra Remix há alguns anos. Como parte de uma conferência de design chamada Parallels, eu levei algumas das principais vozes internacionais para um design camp prolongado em minha casa na ilha de Bruny, uma pequena ilha no sul da Tasmânia. Era um grupo de 30 pessoas trabalhando com a natureza e discutindo design e as questões internacionais, entre outras coisas. Esta área onde cresci, no sul da Tasmânia, é muito selvagem, intocada, com uma população muito pequena, e onde os impactos do Homem nunca foram tão predominantes quanto em grandes cidades. Então, realmente me dei conta do problema quando estava caminhando na praia e vi uma enorme quantidade de plástico encalhado. Estamos falando de itens comuns do dia a dia, como garrafas, canudos, tampas de garrafa e escovas de dente, junto com dejetos marinhos e redes de pesca. Foi um enorme contraste com minhas memórias de infância desses lugares pristinos, e voltar 20 anos depois para ver os mesmos locais repletos de plástico do oceano foi um momento muito impactante. Naquele momento, a semente foi plantada para ver como minha habilidade como designer poderia transformar materiais ordinários em extraordinários, para usar este lixo como um componente essencial, identificá-lo como algo de valor, devolvê-lo à economia material e livrar o meio ambiente deste lixo.

E como esta semente evoluiu?
A partir desse momento ela foi trabalhada até que surgiu a oportunidade de representar a Austrália na Bienal de Design de Londres de setembro de 2016. Houve um ímpeto de representar. Foi uma oportunidade para que os países mostrassem como eles poderiam abordar o tema da Utopia, que era o tema da exposição, perceber o que esta Utopia significa hoje e usar esta plataforma internacional para discutir questões globais, como o lixo plástico no oceano. A Austrália é a maior ilha do mundo, então achamos que deveríamos liderar o diálogo e levar a conversa para a mesa redonda internacional, que se transformou na Mesa Gyro. Era isto que queríamos conquistar e, através de uma ampla pesquisa, juntamos as peças.

Então o que é a Mesa Gyro?
O nome Gyro vem de “giro” que se refere à rede de correntes que circulam a água do oceano por todo o mundo. Hoje, há milhões de toneladas de resíduos tóxicos plásticos no centro destes giros. Através do meu estúdio, identificamos o microplástico como o maior problema. Se trata de pedaços maiores de plástico que foram quebrados em pedaços menores pelos giros oceânicos e pela exposição aos raios UV. Estes pedaços menores são os mais nocivos para a vida marinha. Os peixes os comem e, eventualmente, nós também os comemos. Então estudamos este material e como poderíamos desenvolvê-lo de diversas maneiras. Decidimos fundi-lo por meio de um processo chamado terrazzo. Usamos isso para criar uma versão contemporânea de um tampo de mesa do século XIX, utilizando espécimes de mármore, madeira e marfim preciosos para inspirar um composto de plástico chamado de terrazzo oceânico, que moldamos em um diagrama caleidoscópico para representar as linhas longitudinais e latitudinais da terra.

Como exatamente o terrazzo oceânico é feito?
Esses pedaços de plástico podem ter um ano ou sessenta anos e vão do polietileno ao estireno, passando por todo o resto. Existem vários tipos diferentes e todos se comportam de maneiras diferentes. O único modo de saber o que são é usando datação por carbono, que é muito caro e demorado, então, optamos por combiná-los em uma mistura de materiais que é cortada e exposta na forma de um segmento multicolorido. Para a Mesa Gyro, as cores foram minuciosamente divididas em brancos, azuis e pretos e organizadas manualmente em um mosaico.

Com que tipo de apoio você contou?
Na pesquisa de tudo, trabalhamos com a Universidade da Tasmânia que, por sua localização na ponta do Pacífico Sul e sua proximidade com a Antártica, possui um grande departamento de biologia marinha. Trabalhamos com cientistas e pesquisadores que nos colocaram em uma rede internacional de líderes nessa área e, por meio das redes sociais, tínhamos uma vasta rede de pessoas que coletavam, escolhiam e enviavam microplásticos de todos os cantos do mundo. Eram desde oceanógrafos até biólogos marinhos, limpadores de praia e passeadores de cães. Foi um grande empreendimento. Nós limpávamos e processávamos o plástico e os moldávamos na forma da mesa Gyro. O resultado também foi muito galáctico, então, foi uma peça muito pungente e provocadora para a Bienal.

Ela causou o impacto que você esperava?
Ela estimulou muito envolvimento e interesse, o que resultou em uma cobertura de imprensa realizada por influenciadores, como o NYT e a BBC, em todo o mundo. As pessoas ficam impressionadas com a magnitude e o tamanho da Mesa Gyro, com a maneira como os pequenos fragmentos se juntam neste desenho incrível, mas se você visse essas peças na praia, você pensaria, com toda razão, que elas eram nojentas. Elas não deveriam estar ali e precisamos fazer algo a esse respeito. Foi uma peça muito poderosa e, desde então, temos desenvolvido peças que não são tão trabalhosas e encontrado maneiras de criar móveis feitos de plástico oceânico usando o método de molde único.

Como isso pode mudar o comportamento das pessoas?
Estamos tentando mostrar a grande quantidade e o valor dos plásticos que existem. Temos que conter isso e nos conscientizar de que é um grande problema. Há poucas praias no mundo que não sofrem com isso. Isso se resume à gestão de materiais. Os países em desenvolvimento estão adotando o plástico em uma quantidade astronômica. Estive recentemente em um supermercado na Tailândia e fiquei totalmente espantado com as embalagens. O lugar inteiro estava cheio de plástico e se eles não possuem um centro de reciclagem, a educação e a infraestrutura para coletar e processar este material. Como saber que ele não acabará no meio ambiente? Este é um problema global. Encontramos muitos nurdles, que é o plástico virgem que nunca foi transformado em nada. É realmente desanimador porque, pelo menos no caso de garrafas ou garfos, eles já tiveram uma função, mas os nurdles são grânulos de plástico que caem no chão das fabricas, que são lavados e então esses grânulos caem no ralo e são levados para os estuários e para o oceano e acabam nos nossos sistemas. As pessoas os coletam e os enviam para nós em quantidades enormes. Você já viu aquelas pequenas canetas azuis em lotéricas e bancos? As pessoas as pegam distraidamente e depois as jogam na rua e elas acabam no sistema de esgoto, até as praias de Cornwall ficarem cobertas delas.

Qual é a resposta?
Precisamos mudar a nossa atitude em relação ao plástico para entender que tudo o que descartamos, desde garrafas até embalagens, precisa ser descartado de maneira responsável. Cada um de nós é responsável pela maneira que nosso lixo é descartado. Pequenas ações, como não usar garfos e canudos de plástico, fazem a diferença, assim como fazer reciclagem religiosamente, mas o principal é que corporações participem. Precisamos olhar também para como mantemos o plástico em uma economia circular. Mudar a legislação e incentivar as pessoas a reciclar através de recompensas torna mais fácil fazê-lo. Há muitas questões.

O design pode abrir caminho para aumentar nossa conscientização?
Não acho que o design sozinho possa resolver o problema, mas se pudermos mudar a percepção das pessoas sobre o que é o plástico e chegarmos à conclusão de que ele não deveria estar no meio ambiente, já será um grande passo. Não há muitos designers e artistas trabalhando com isso, mas espero que isso mude. Como disse antes, minha contribuição é pequena, é um efeito cascata que leva a maiores discussões sobre o problema, mas eu prefiro contribuir não apenas para a conscientização das pessoas, mas para um efeito maior. É nisso que estamos trabalhando no momento.

E a sua última instalação no Festival de Design de Londres?
Foi algo diferente, que combinava multimídia, natureza e tecnologia para projetar uma imagem única em 4 mapas de projeção que ocupavam todo o interior de um átrio moderno parecido com o de uma catedral. No chão havia uma piscina de plástico, e a cada 4,2 segundos, uma gota de água caia do topo do átrio de 10 andares e criava ondulações que eram projetadas como uma grande onda nas paredes. Era um espaço muito relaxante para contemplação – para que as pessoas se perguntassem. “O que uma gota no oceano pode fazer? Como minhas ações podem causar um impacto?”. O meio milhão de fragmentos que usamos para criar a Mesa Gyro são apenas uma gota no oceano quando comparado aos 5,25 trilhões de pedaços de plástico que se encontram no oceano hoje.

Como você acha que as coisas estarão daqui a 100 anos e quais são os principais passos ao longo do caminho?
Infelizmente, acho que as coisas irão piorar antes de melhorar, provavelmente, como já disse, por causa do grande consumo de plástico em comunidades que estão se desenvolvendo rapidamente sem a infraestrutura para lidar com isso. Espero que haja um momento no qual daremos um basta nesta situação e retornaremos à permacultura para levarmos uma vida em harmonia com a natureza. Nunca seremos perfeitos. Sempre haverá aviões a jato para transportar alimentos exóticos de outros lugares, mas se formos inteligentes sobre a maneira que fazemos as coisas, e como reutilizamos e refazemos as coisas, poderemos atingir um estilo de vida de ciclo fechado.

Nascido na selva da Tasmânia e com uma grande paixão e conexão com a natureza, o que o atrai em Londres?
Eu cheguei depois de um mestrado na Rhodes, em Nova York, porque queria estar perto do epicentro do setor de design, que era muito eurocêntrico, e descobri que Londres era um foco de inspiração. Parecia a localização perfeita e, de muitas maneiras, ainda é. É um local fantástico para conectividade e diálogo.

Leia essa e outras reportagens no site da Athena Advisers, clicando aqui.

Athena Advisers

Investimento, propriedades e lifestyle. A Athena Advisers é uma consultoria boutique especializada em propriedades high-end em Lisboa, Barcelona, Côte d’Azur, Alpes, Paris e Londres. A agência foi uma das primeiras a fincar bandeira na capital portuguesa prevendo o boom imobiliário que faz da cidade o novo eldorado do real estate internacional.