Design

Maturidade no novo lar

O arquiteto Sarkis Semerdjian montou o lar com sua esposa, Ani, garimpando peças na Europa. De quebra, reaprendeu a fazer design

por Artur Tavares 30 Ago 2017 11:01

Parece história de filme, mas é a vida do arquiteto Sarkis Semerdjian e sua esposa Ani. Descendentes de armênios, eles namoraram a distância por anos. E não foi qualquer distância. Ela, soviética de nascença, trabalhava na Holanda. Quando decidiram casar, Sarkis passou um ano e meio garimpando peças em antiquários e casas de leilões europeias entre as idas e vindas que fazia para visitar sua amada. Hoje, Sarkis tem a esposa por perto, e uma casa com algumas peças de causar inveja para muitos colecionadores.

Fã do dinamarquês Hans Wegner e do design escandinavo dos anos 50, um dos sócios do escritório de arquitetura Pascali Semerdjian aproveitou a criatividade dos profissionais que trabalham consigo para compôr em sua casa aquilo que não trouxe de fora. Em sua sala, há um sofá desenhado para a coleção Etel. A luminária na estante foi premiada com o IF Gold Award. O móvel do home theater em sua sala é uma composição de blocos de granito Cairo e madeira de nogueira, peça que ele não pretende repetir para nenhum de seus clientes. “A iluminação da sala tem muito poucos pontos de forro. Queria uma estante ali, já que tenho uma coleção muito grande de livros, e enchi a parede de tomadas. É uma estante muito simples, praticamente uma linha reta, mais alta do que uma estante de livros deveria ser. Por isso coloquei quadros e luminárias também, inclusive a premiada no IF. Praticamente toda minha iluminação indireta vem de lá”, explica. Antigo fã de jogos de videogame, fez de um ambiente um cenário 8-bits, uma das primeiras gerações de games, ainda nos anos 1980: “Tem uma interferência abrupta da sala para a cozinha. A parede tem pastilhas sextavadas, e de um lado para o outro não tem nem painel nem porta que separe os ambientes. Minha inspiração foram os jogos de plataforma 2D, que apresentavam os personagens de lado, uma visão em corte. As pastilhas são como os pixels. Eu era muito viciado em videogames.”

Semerdjian fala daquilo que conseguiu nos garimpos europeus com muito orgulho. Não é para menos: “Tenho duas poltronas originais Hans Wegner dos anos 40. A poltrona de balanço norueguesa é super-rara. Do lado da televisão há uma poltrona popular sueca de Bruno Mattos, é de sua edição original. Hoje existem as reedições. Os banquinhos do lado do bar são finlandeses, originais, mas reeditados hoje pela Artek. O porco de madeira, em pinho de riga, é uma peça de que gosto bastante. Compramos em um leilão online de uma casa dinamarquesa.” Orgulhoso, ele continua: “A luminária com a cúpula vermelha e domo em celuloide é difícil de se encontrar. É uma peça feita pelo francês Adeline Rispal nos anos 50. Ele escolhia madeiras com curvatura natural para deixar as peças mais orgânicas. Era bastante cara, acabei não comprando. Voltei para o Brasil e um mês depois sonhei com a luminária. Escrevi para o dono, que ainda tinha, e então comprei. Trazê-la foi um processo difícil, tive que desmontá-la.”

Desmontar e remontar peças passou de hobby para hábito precioso para o arquiteto. Foram nessas viagens que Sarkis reaprendeu como fazer design. As técnicas acabaram beneficiando a Pascali Semerdjian: “Foi muito bom ter montado a minha própria casa, porque pude conhecer a fundo o design europeu. Isso me influenciou. A luminária vencedora no IF surgiu nesse período. A partir daquele momento, passei a ter mais gosto em fazer peças de design. De tanto ver, você passa a ter vontade de fazer também. Até então, no escritório, fazíamos ‘design domingueiro’. Era uma peça por ano, até porque isso nunca pagou as contas. Mas, agora, buscamos fazer cada vez mais. Eu passei a ter mais fluência no assunto”, conta.

Ávido em aproveitar o novo lar com Ani, que finalmente veio morar no Brasil, Sarkis Semerdjian ainda divide seu tempo com a Europa. O motivo são alguns projetos na região disputada de Nagorno- Karabakh, na fronteira da Armênia com o Azerbaijão, ele tenta construir casas populares lá como forma de filantropia. No país de seus antepassados, ele está projetando uma casa para soldados. Não só isso, uma casa na Dinamarca e um apartamento em Portugal também estão em seu caminho.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.