Design

Cidade para todos

Com a inauguração do Sesc 24 de Maio e do novo Instituto Moreira Salles, o arquiteto e designer Guto Requena reflete sobre como os paulistanos estão se mobilizando para devolver a cidade para eles mesmos

29 Jan 2018 09:50

Por Guto Requena, em depoimento a Artur Tavares

Estou prestes a inaugurar um novo projeto em Paris, mas minha atenção não me deixa ficar longe de São Paulo. Do topo do Le Terminal 7, prédio na região de Porte de Versailles, reflito sobre como a reforma de um imóvel antigo, de rooftop com vista para a Torre Eiffel, serve para readequar as funções de toda uma região. Porte de Versailles está passando por uma grande transformação urbana, assim  como a região central da capital paulista. Aqui na França, transformo uma discoteca em um espaço de eventos para cerca de 2.500 pessoas, um parque de exposições que pode receber salões do automóvel, semanas de design de moda, ainda mantendo a cara de clube noturno e casa de shows. No Brasil, sem muros ou grades aparentes, os recentes Instituto Moreira Salles e o Sesc 24 de Maio são convidativos a quem passa na rua, dando novas funções aos seus pedaços.

Desde que o homem é homem, o conceito de espaço misto existe. Dificilmente, construções públicas têm um único uso. Ao que assistimos, de uns 80 anos para cá, é o fortalecimento da ideia. Galpões industriais viram casas de show, espaços comerciais se transformam em ambientes de convivência. Com a tecnologia, as possibilidades de abrir e fechar grandes portas, trocar rapidamente iluminação, o conceito evolui ainda mais. Grande exemplo disso dentro do Brasil é o Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi, provavelmente o projeto de arquitetura mais importante que temos em São Paulo. Já o Sesc 24 de Maio, projeto de Paulo Mendes da Rocha, transformou uma antiga fábrica em centro de cultura e esporte.

A arquitetura tem papel de requalificar. O que percebemos no centro de São Paulo é que esses espaços mistos vêm para melhorar a qualidade de vida da região. Usar a palavra revitalizar é errado. O centro de São Paulo não está morto, por isso não precisa ser revitalizado. É preciso trazer novas qualificações e qualidades. Temos uma série de espaços abandonados, como praças sem mobiliário. Quando qualificamos isso, trazemos funções, usos e, obviamente, um sopro de esperança.

Forma e conteúdo têm que andar juntos. Atualmente, em meu trabalho, estudo como a arte pública e as fachadas interativas podem influenciar na vivência da cidade. Com as novas tecnologias digitais e interativas, conseguimos adicionar camadas poéticas a esses projetos. É o que eu chamo de arquitetura híbrida. Além de utilizar concreto e vidro, proponho uma materialidade virtual, com sensores e LEDs. Estou tentando criar espaços mais emotivos. Um bom exemplo é o Pavilhão Dançante, que desenhei para a Olimpíada, no ano passado. Instalamos uma série de sensores que detectavam as emoções das pessoas dentro da pista de dança, e o prédio inteiro respondia a esses estímulos. Eram 500 espelhos e motores rotacionando e criando diferentes padrões, um prédio que literalmente respondia aos estímulos das pessoas. Na fachada do WZ Hotel, na esquina da Oscar Freire com a Rebouças, montei o Light Creature, em que a cor indica a qualidade do ar, enquanto o movimento indica o barulho.  São dois dados que fazem parte do dia a dia de São Paulo, barulho e poluição, que não geram discussão. Um prédio de 40 andares no meio do nosso caminho talvez seja um convite à reflexão sobre nosso papel e impacto na cidade.

Se a vista de um edifício tão grande gera reflexão, o que dizer das fachadas convidativas do novo Sesc ou do Instituto Moreira Salles? Nas últimas décadas, a “indústria do medo” nos fez acreditar que era melhor morar em condomínios fechados, andar em carros blindados e se divertir em shopping centers. O que nós percebemos é que isso só gerou uma cidade com mais violência. E medo só gera mais medo. Quando não ocupamos o espaço público, tudo fica mais violento. O que temos observado na última década, especialmente nos últimos cinco anos, muito impulsionada por um ativismo digital, é a retomada do espaço público. São Paulo se tornou um exemplo internacional, muito citado nas mais de dez palestras internacionais que dei neste ano. A cidade tem uma vontade de retomar o que é nosso. Hoje, já são mais de 15 avenidas fechadas para carros no domingo. Além disso, uma série de festivais de rua acontece por meio de crowdfunding. Os grandes exemplos de projetos arquitetônicos hoje são aqueles que tiram os muros e dão acesso à população. O IMS é uma delícia: você está andando pela Paulista, e o fluxo natural é entrar no prédio. O Sesc 24 de Maio é a mesma coisa. Sabemos que quanto menos a cidade tiver, mais segura ela fica. É o oposto do que nos fizeram acreditar. Temos que sair dessa sociedade do medo para ir para uma sociedade mais fraterna.

Ainda assim, as regiões periféricas são carentes de tudo. É claro que existem espaços mistos, vários projetos interessantes, mas elas ainda são totalmente carentes. Dá para oferecer mais instituições e cultura. O que pode funcionar bem é arte pública e mobiliário urbano com tecnologia adicionada. No ano passado, instalei na Praça Coronel Fernando Prestes, no Bom Retiro, um projeto chamado Me Conta um Segredo? Consistia em um conjunto de bancos com uma câmara coletora de segredos. As pessoas eram convidadas a pegar o telefone e contar algo. Quando se sentavam nos bancos, eles disparavam. O que percebi é que essas pessoas, que não conversavam no espaço público, passavam a se falar por intermédio da interação com a obra. Isso, especialmente em um bairro de imigrantes, gera grandioso potencial para falar de pertencimento, memória, empoderamento e autoestima.

Tenho uma nova obsessão, que é o oceano. Acabei de voltar de Harvard, onde dei aulas e tive contato com dados de pessoas que dizem que, em no máximo 20 anos, estaremos acabados. É de assustar. Fiquei pensando sobre como usar a superfície desses prédios para problematizar essas questões. As fachadas têm papel democrático, podem ser utilizadas para falar de questões escondidas à população. Passada a inauguração do Le Terminal 7, é a isso que vou me dedicar.