Arte

Uma visita à Fondazione Prada

Quando uma ex-comunista cria uma das mais belas instituições de arte privadas do mundo

por Shoichi Iwashita 9 Fev 2017 12:31

Durante toda a sua visita, deixe o ingresso no bolso, com acesso fácil, pois ele será pedido em cada um dos 10 pavilhões, de todos os formatos imagináveis, espalhados nos 19 mil metros quadrados (duas vezes maior que o novo Whitney do Renzo Piano em Nova York) que formam a Fondazione Prada, o maior espaço dedicado à arte contemporânea de Milão (incrivelmente, a mais internacional — e rica — das cidades italianas e uma das capitais mundiais da moda e do design não tinha nada parecido; só o HangarBicocca, da Pirelli, do outro lado da cidade com 15 mil metros quadrados). Fundada em 1993 (a fundação) mas com a sede inaugurada apenas em maio de 2015, ela é resultado do recente interesse por arte da herdeira-que-nunca-quis-ser-estilista que se tornou um dos maiores nomes da indústria (o grupo Prada — Prada, Miu Miu, Church’s, Car Shoe e Pasticceria Marchesi — tem hoje faturamento anual de mais de € 3,5 bilhões). Mas a resistência de Miuccia Prada de entrar para a moda, assumindo, em 1978, a marca criada por seu avô na Milão de 1913 (assim como o desconforto que ela sente em comprar arte, gesto que ela acha nada nobre) tem tudo a ver com sua formação. Ela é doutora em ciências políticas pela Universidade de Milão, foi aluna de pantomima, feminista e filiada ao Partido Comunista (cujos panfletos ela distribuía vestida de Yves Saint-Laurent); e até hoje, a inventora do vintage nos anos 1990, não usa maquiagem. Por isso, diferentemente da Fondation Louis Vuitton em Paris, não espere encontrar nenhuma alusão ao logotipo da marca — ou sequer à moda — em qualquer canto da Fondazione. O maior medo de Miuccia e de seu marido Patrizio Bertelli, que só a partir de 1993 passaram a comprar obras de arte, é o da vulgaridade, o de público achar que a proposta da instituição seja vender bolsas.

E a relação próxima de Prada com o starchitect holandês Rem Koolhas, autor do projeto da Fondazione, também reflete esses valores e não é nova: é de seu escritório, o OMA, as lindas lojas da marca no SoHo, em Nova York, projeto de 2001 (me lembro na época de viajar para lá ansioso para conhecer a loja); na Rodeo Drive, em Los Angeles, de 2004; da cenografia dos desfiles masculinos e femininos há muitos anos; além de alguns projetos para lookbooks e exposições e eventos que a Fondazione Prada vem organizando nesses últimos 25 anos sem sede própria, ocupando galpões abandonados, igrejas inutilizadas, trazendo não só exposições individuais de artistas como Anish Kapoor e Michael Heizer para o público italiano pela primeira vez (foram mais de 20 exposições solo de artistas convidados), mas também promovendo conferências sobre filosofia contemporânea, design e arquitetura, e iniciativas relacionadas ao cinema, em Milão, Londres, Paris e Seul. Eventos que agora podem ser realizados no incrível cinema próprio que ocupa o coração do terreno da destilaria de gim dos anos 1910, instalada numa zona industrial ao sudeste de Milão — um lugar meio sujo, nada bonito e cheio de chineses que não falam um ciao em italiano —, o Largo Isarco, ao lado de trilhas de trem.

O projeto arquitetônico também surpreende, por não ser “nem uma arquitetura de preservação nem uma nova arquitetura, tão focada na expressão da individualidade dos arquitetos”, nas palavras de Koolhas, e nem seguir a linha white cube. O fato de nenhum pavilhão ser igual ao outro — sete são restaurados, três são novos; tem um que é vertical e estreito, outro horizontal e amplo (e os volumes originais foram mantidos); ora você vai estar no alto, ora no subsolo; no escuro ou iluminado pela luz do dia; coberto ou ao ar livre; exposição permanente vs. temporárias + obras site-specific; no branco, no preto, no prata, no ouro — desestabiliza e desafia nossa percepção tanto das obras quanto da arquitetura em si. É realmente um projeto único, diferente de tudo o que você já viu. Isso porque a Torre, um bloco monolítico de nove andares, que vai alterar a paisagem da região, ainda não foi inaugurado; e é lá que vai ficar o acervo permanente da coleção da Prada formada por quase 900 obras de arte, principalmente dos anos 1950 até hoje. E não deixe de visitar os banheiros (não tem um igual ao outro e você vai se sentir no futuro) e tomar um espresso ou comer um picolé vintage no Bar Luce, o café de decoração lúdica idealizado pelo cineasta Wes Anderson (a gente se sente em um de seus filmes). E não precisa de ingresso para acessar o bar, o cinema ou a biblioteca.

OUTROS ESPAÇOS CULTURAIS DA FUNDAÇÃO PRADA
Além da Fondazione em Milão, a Prada mantém mais dois espaços culturais na Itália: o Ca’Corner della Regina, um palazzo histórico do século 18, no Gran Canale, em Veneza, inaugurado em 2011, onde promove exposições coletivas; e também o Osservatorio, um galeria dedicada à fotografia que ocupa alguns salões nos quinto e sexto andares da Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão, onde fica a primeira a loja da marca, inaugurada em 1913.

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.