Arte

Torre de Babel

Um dos maiores fotógrafos brasileiros é também autor de dois livros de ficção. Aqui, J.R. Duran conta como sua paixão por Burton, Conrad e Maltese o levaram aos rincões mais inóspitos da Terra

12 Jan 2018 08:50

Marcel Proust, no fim de Em Busca do Tempo Perdido, diz que “a vida, a verdadeira vida, enfim descoberta, é a literatura”. Descobri a vida e a literatura bem cedo. Meu pai tinha, em nossa casa de Barcelona, uma biblioteca razoavelmente grande (eram quase 2 mil títulos) e extremamente bem servida. Espalhados em prateleiras que me pareciam infinitas, os livros concentravam, lombada com lombada, volumes e mais volumes sobre um pouco de tudo; ou – se me permitem a falsa modéstia – de tudo, o melhor. Escritores de literaturas francesa, americana, espanhola, catalã, alemã, sul-americana e de todos os gêneros estavam à minha espera; ensaios, aventura, história, policial e filosofia.

Para mim, adolescente inundado de timidez absoluta, antes de descobrir a liberdade da fotografia, os livros foram a porta de entrada para o mundo real. Passei incontáveis tardes de verão (depois de manhãs ensolaradas mergulhadas no azul do Mediterrâneo, porque ninguém é de ferro, isso sim) deitado em um sofá e absorvendo as palavras intermináveis à minha disposição. O mundo lá fora me parecia sem graça comparado com a vida que exala uma página escrita.

Os pequenos detalhes de Stendhal, a Barcelona de Juan Marsé perto de mim, porém tão distante dos meus olhos, as aventuras de Fleming e seu agente secreto (“double-o-seven”) relativamente conhecido na época, a intensidade e precisão de Flaubert, os delírios de Cortázar, Goethe e as dores do jovem Werther, a fina ironia de Waugh na Abissínia (demorei muitos anos a pôr meus pés em Asmara, também) são companheiros de viagem (para mencionar apenas alguns deles), de dias de praia, noites de insônia, tardes de chuva. E, acima de tudo, propulsores de imagens. Motores de fantasias que se tornam realidade com a câmera fotográfica.

Os livros, além de habitar as paredes de casa, são como pequenos tijolos que formam em minha mente uma torre de Babel imaginativa com perspectiva de bom acabamento. Tive a sorte de, com o passar dos anos, aprender vários idiomas e poder ler os textos na versão original. E a música das línguas faladas alimenta meus olhos e alegra meu coração. E me leva, fisicamente, a lugares inesperados.

Em certa ocasião, passei três dias em Malta, por exemplo, seguindo os passos do pintor Caravaggio depois de ter lido três biografias seguidas (de diferentes autores, of course) dele. Andando pelas ruas de Valletta, a capital da ilha, à procura de um portal por onde Caravaggio tinha passado bêbado, olhando para as estrelas que ele tinha contemplado, extasiado perante a tela A Decapitação de São João Batista pendurada no mesmo muro em que sempre esteve.

Confesso, porém, que essa paixão pelos livros me leva a alguns extremos. Impulsionado por uma mistura feita à base da leitura dos diários de Richard Burton, Joseph Conrad e seu O Coração das Trevas e a Etiópia de Corto Maltese, montei um périplo de viagens por Eritrea, Etiópia, Ruanda e Congo (sendo que, por pouco, não volto deste último país). O resultado, fotograficamente falando, rendeu um livro, Cadernos Etíopes, modesto aceno a Rimbaud, o poeta maldito. A seguir uma lista de livros. Aviso que eles não têm nada em comum entre si, apenas o fato de que li várias vezes cada um deles. E, tenho certeza, o farei outras mais.

THE COMPLETE WORKS OF ISAAC BABEL – Isaac Babel
Babel é o mais conhecido dos escritores reconhecidos por quem gosta de literatura. Ele foi preso, torturado e executado durante o Grande Expurgo de Stalin. Babel é para a literatura o mesmo que os Los Desastres de la Guerra, de Goya, são para a pintura.

A METAMORFOSE – Franz Kafka | Cia. das Letras
Como não ler de uma vez uma novela que começa assim (mantive a versão em espanhol, que tenho em casa): “Cuando Gregorio Samsa se despertó una mañana después de un sueño intranquilo, se encontró sobre su cama convertido en un monstruoso insecto”.

OS ENSAIOS – Montaigne | Penguin Companhia
Como encarar as reentrâncias e saliências da vida? Michel Eyquem de Montaigne tem a resposta para tudo.

ÚLTIMAS TARDES CON TERESA – Juan Marsé
O catalão Marsé descreve perfeitamente como era a vida em Barcelona nos anos 1960, quando eu queria ser o que sou agora.

A CARTUXA DE PARMA – Stendhal | Penguin Companhia
A minha educação sentimental começa com Flaubert e termina com Stendhal. O resto é tudo fantasia.

AS LEIS FUNDAMENTAIS DA ESTUPIDEZ HUMANA – Carlo M. Cipolla
Um professor de história de Berkeley descreve, em poucas páginas, o comportamento do ser humano e analisa o fenômeno da estupidez.

FLASHMAN – George MacDonald Fraser
É impossível não se apaixonar pelas aventuras de Harry Paget Flashman, o anti-herói criado por Fraser. Em 12 novelas, ele circula por alguns dos momentos históricos dos século 19 da maneira mais covarde, sem caráter, politicamente incorreta e divertida que se possa imaginar.

A INVENÇÃO DE MOREL – Adolfo Bioy Casares | Biblioteca Azul
Romantismo, fantasia e antecipação. Casares consegue imaginar uma máquina 3D, cem anos atrás, como ponto de partida de uma história de amor. O livro que inspirou o filme L’Année Dernière à Marienbad, de Alain Resnais.

VOYAGE AUTOUR DE MA CHAMBRE – Xavier de Maistre
O autor foi condenado a ficar preso por um mês em seu apartamento por causa de um duelo. Para escapar do tédio, ele escreveu este livro contando as viagens que fez para fugir da prisão sem sair do quarto.

TODA POESIA – Paulo Leminski | Cia. das Letras
O poeta brasileiro que atira para todas as direções. E, ainda por cima, tive o prazer de trabalhar com ele muitos anos atrás.

O LEOPARDO – Giuseppe Tomasi di Lampedusa | L&PM Editores
Lampedusa escreveu apenas um livro – e depois dos 50 anos. É de um dos personagens, Tancredi Falconeri, a frase “é preciso que tudo mude para que tudo continue igual”. Luchino Visconti converteu o livro em um filme. Os dois, livro e filme (e também Lampedusa e Visconti), são inesquecíveis.

A ILHA DO DR. MOREAU – H. G. Wells | Alfaguara
Comecei a lista com um livro que acontece em uma ilha. Fecho com uma aventura em outra. O realismo fantástico de Wells não conseguiu ser igualado por ninguém. Os roteiristas de Hollywood morrem de inveja até hoje (e todas as versões filmadas do livro são lamentáveis).