Arte

Sensualidade e emancipação

A fotógrafa Mariana Caldas estava cansada dos ensaios femininos feitos por homens e decidiu revolucionar a imagem. Hoje, tem alguns dos mais belos retratos de mulheres da nossa geração

por Artur Tavares 17 Ago 2017 11:26

Mariana Caldas, fluminense radicada em São Paulo, vem se especializando em capturar a sensualidade de mulheres cheias de atitude, ou para usar o jargão, empoderadas. Seu olhar é diferente daquele a que estamos acostumados em ensaios publicados em revistas e na internet. Exemplo são as fotos de Lydia Caldana, etéreas, provocantes e íntimas, preparadas especialmente para esta edição de Carbono Uomo.

Jornalista de formação e fotógrafa de coração, Mariana saiu de Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, para se graduar na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo. Teve passagens pela MTV e Mix TV, onde trabalhou com música. Foi ainda jovem, como produtora na revista Trip, que começou a se questionar sobre a maneira como as mulheres eram retratadas em ensaios sensuais. Na época, ela namorava um ornitólogo e por causa dele rodou o Brasil clicando a natureza. “Eu fiquei dois anos retratando paisagens, meus amigos, uma coisa totalmente despretensiosa. Passei a querer fotografar pessoas, fazer alguns ensaios com mulheres. Na época da Trip, não fui Trip Girl. Lá, vivi o momento da briga pelo fim dos ensaios com as funcionárias”, explica. “Eu não via muitas mulheres retratando outras naquela época. Tinha a Autumn Sonnichsen. Eu achava muito estranho que só homens nos fotografassem, então fiquei com essa vontade de pensar o olhar feminino sobre o feminino, de pensar que tudo aquilo poderia ser feito de outra forma, saca?”

Naquela época, antes de ter imagens publicadas na VIP, no MECA Journal, na italiana C 41 e na norte-americana C-Heads Magazine, entre outros veículos nacionais e estrangeiros, Mariana já tinha um outro trabalho artístico consolidado. Chamado Poeme-se, ele consiste em fotos da natureza feitas por ela, sobrepostas por colagens com frases que a marcaram em algummomento de sua vida. Ao longo de seis anos, o Poeme-se já reúne mais de 300 obras, nas quais Mia Couto e Paulinho da Viola são alguns dos mais citados. Outros exemplos? José Saramago, Pablo Neruda, Manoel de Barros, Eduardo Galeano, Mario Quintana e o músico norte-americano Stephen Malkmus. “Eu me sinto muito nua às vezes. A minha vida está ali no Poeme-se. Todas as coisas que me aconteceram estão lá. Quando o criei, foi a maneira que acreditava ser a melhor para me comunicar com o mundo”, conta Mariana, que começou a obra quando decidiu presentear seu amor com uma foto com uma poesia por cima. A inspiração vem de sua mãe, artista plástica, que pintava relógios e vasos com cores extravagantes e frases de que gostava.

Quando comprou sua primeira câmera, em 2010, Mariana tornou a fotografia um costume compulsivo em sua vida. No ano seguinte, ela ia ao estágio na MTV pela manhã, passava o almoço revelando imagens em bureaus, voltava para o trabalho e depois entrava madrugada adentro produzindo as colagens do Poeme-se. As mulheres vieram posteriormente: “Eu ficava pensando o quanto é uma merda neste mundo as pessoas poderem realizar os desejos dessas mulheres de se sentirem sensuais e estragarem tudo. São tantos relatos de assédios. Acho totalmente válido fazer um ensaio sensual, se sentir maravilhosa. Todas têm esse direito. Mas se para fazer isso você precisa entrar em um universo completamente masculino e machista, não dá. Essa experiência deve ser incrível, e não traumática”. Ela passou três anos produzindo apenas em uma câmera analógica Olympus OM-2, mas hoje já anda com uma Canon 7D a tiracolo. “No início, nem editava minhas fotos. A partir de um certo momento, comecei a experimentar. Dava uma editada, parei de perder material por não querer jogar no Photoshop. Depois entrei em uma onda de que é muito louco mexer digitalmente em uma foto analógica. Já que estamos aqui em 2017, e não em 1970, quero tentar dar uma pirada na pós-produção, usar o que a plataforma proporciona, criar efeitos.”

Durante os últimos quatro anos em que esteve retratando mulheres, Mariana também entendeu a si mesma. Para ela, a sensualidade é uma sensação, e não uma imagem. “Eu me descobri muito enquanto fotografava. Não foi à toa que busquei esse tema para trabalhar. Porque fico pensando que a imagem da mulher que nós tínhamos, até pouco tempo atrás, era uma imagem masculina. Isso é muito mindfucking. Eu queria falar do feminino através dele mesmo.” Para ela, “a sensualidade é maravilhosa, faz parte da nossa natureza, é uma potência. É como se a mulher fosse uma onça, mesmo se tiver rosto de borboleta. É algo feroz, selvagem. Isso me interessa mais do que dar close para o crush. Por isso tento falar de coisas mais profundas, e acho que a sensualidade pode trazer esse elemento selvagem de dentro. A mulher consegue encontrar um prazer real por si mesma, o corpo dela já é tudo, ela não precisa de nada além disso.”

Mariana, que tem como costume clicar as mesmas modelos mais de uma vez, em diferentes ensaios, acredita que esteja contribuindo para a emancipação daquelas que retrata: “Eu tenho essa piração de fotografar as mesmas meninas mais de uma vez, porque a escolha não é estética, e sim sobre quem essa pessoa é no mundo. Isso me interessa mais do que os rostos delas. Quero saber o que há dentro de cada uma, o que elas podem transportar para uma imagem. É incrível porque sempre será diferente, aquelas pessoas mudaram. Gosto de assistir esse processo florescer. Acho que é muito feminino também, algo de dentro para fora. Vê-las tornarem-se mulheres é algo com que piro. Tento passar isso no meu trabalho”.

Com um longo caminho de sucesso pela frente, hoje, aos 28 anos, a artista leva consigo um aprendizado: “Conhecer todas as pessoas incríveis que retratei, cada uma de um jeito, me deu essa noção de que o feminino é grande demais. Não existe limite aqui. Não tem por que você se masculinizar para ser CEO da sua empresa. Você pode chegar a esse caminho sendo sempre feminina. Essas garotas me ensinaram muito, me mostraram como é maravilhoso ser mulher, o quanto podemos ser completamente diferentes umas das outras, e que está tudo bem assim. Elas me ensinaram que não há limite. Vê-las descobrindo seu talento é maravilhoso, é tudo o que quero”.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.