Arte

Rotações Sonoras

Fruto da paixão de dois franceses pela música, o selo paulistano Goma Gringa vem produzindo discos de vinil de alguns dos principais nomes da cena brasileira atual

por Artur Tavares 7 Fev 2018 12:30

O CD está morto. Atualmente, não há máxima maior no universo da música do que esta. O formato foi substituído por dispositivos digitais, como celulares, e por plataformas de streaming, cujos catálogos são virtualmente infinitos. É nesse cenário que os discos de vinil voltaram a ser produzidos. Faz sentido. Eles têm qualidade de som melhor que qualquer MP3, são objetos colecionáveis e de desejo, e feitos por artistas que se preocupam com muito mais do que colocar seus singles – hits sem valor – para a audição da grande massa. No Brasil, o disco de vinil apareceu primeiro nesse início de século com os relançamentos de clássicos pela Polysom e, na esteira da fábrica carioca, gravadoras menores surgiram, entre elas a Goma Gringa.

Selo que lança majoritariamente artistas da nova safra nacional, a Goma Gringa é resultado da união de forças dos franceses Matthieu Hebrard e Frédéric Thiphagne. O primeiro é professor do primário do colégio paulistano Liceu Francês, e o segundo, um designer gráfico que chegou no Brasil há seis anos. Como forma de se estabelecer por aqui, Fred passou a vender discos raros garimpados em suas andanças e um golpe do destino fez de Hebrard um de seus primeiros clientes. A sintonia aconteceu logo no primeiro encontro: “No início, a ideia era se juntar e continuar o negócio de importação, para depois se tornar um selo. Quando começamos a estudar o sistema, percebemos que era mais simples prensar uma edição brasileira”, conta Fred, como é conhecido por aqui. Por ter trabalhado na Superfly, uma loja de discos de vinil em sua terra natal, ele tinha contato com uma série de distribuidores e licenciantes, que garantiram à Goma Gringa seu primeiro lançamento, o álbum Sorrow, Tears & Blood, do nigeriano Fela Kuti, em 2013. Os poucos licenciamentos internacionais que foram o embrião da Goma Gringa deram espaço aos artistas brasileiros quando a empresa percebeu que a manutenção de direitos autorais aumentava muito os custos operacionais.

Hebrard, que está no Brasil desde 2001, também toca contrabaixo, e por isso viu de perto surgir uma cena paulistana de pessoas talentosíssimas, entre elas Kiko Dinucci, Jussara Marçal, e Thiago França. Além de terem trabalhos solo, os músicos atuam juntos em grupos como Metá Metá e A Espetacular Charanga do França, o que garante ao selo uma enorme variedade de lançamentos: “São artistas que começaram na internet. Eles eram ratos de MySpace, apareciam em todos os lugares. Tinham entendido que nesse jogo de redes sociais precisavam trabalhar em blocos. Quando veio o Facebook, eles já estavam estabelecidos. A ideia de ter um grupo de músicos com várias formações diferentes, sempre com trabalhos autorais, é muito bem bolada. Ao invés de ter uma banda, eles têm seis, e tocam cada dia da semana com uma delas”, explica Matthieu. “O selo trabalha principalmente com esses caras porque eles produzem muito. É um disco melhor do que o outro. Não temos muito tempo nem grana para variar, então ficamos focados. Me lembro quando eu estava montando o Malagueta, Perus e Bacanaço, do Thiago, e no mesmo dia ele me mandou um mp3 dizendo que havia gravado um novo disco, Space Charanga. Era jazz pra caramba, até hoje piramos muito. Não tinha como não lançar”, conta Fred.

Se a qualidade musical dos artistas da Goma Gringa já é fator suficiente para enaltecer o selo, este não é o único destaque. Todos os lançamentos têm algum atrativo gráfico, seja o disco transparente e a capa com laminação dourada de MM3, do Metá Metá, ou o encarte-pôster da Charanga do França: “As capas são um pouco de frescura minha, assumo. Eu piro nisso. Mas tem a ver com a qualidade. Um exemplo muito revelador foi com a Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou. A capa é toda em tipografia, clichê de retícula, e feita em linotipo. Recebemos retorno de muitos clientes dizendo que era uma obra de arte. Acho muito revelador, porque o que um dia foi um padrão hoje é visto como peça de arte. Mostra como a qualidade de padronização da indústria caiu”, explica Fred. Mesmo com tantos detalhes, os álbuns não têm preços muito superiores aos dos concorrentes da Goma: “Não estamos no mainstream, não vendemos milhões de discos. Mesmo se vendêssemos, não abriríamos mão da qualidade. O público que atingimos não pensa duas vezes em escolher entre o mesmo disco em uma capa básica ou com capa dura serigrafada, que custa R$ 10 a mais.”

O lançamento mais recente da Goma Gringa é do trio paraibano instrumental Onça Combo, cuja formação inclui viola de 10 cordas e um saxofone tocado por um suíço que está radicado no estado nordestino há quase 20 anos. A tiragem foi bastante restrita, apenas 150 cópias, mas as baixas vendas no mercado brasileiro não preocupam o selo: “O CD já está quase obsoleto. Você guarda um disco lacrado por dez anos e coloca pra tocar depois, e tem uma chance de 70% de ele não funcionar. A tecnologia vai sumindo. O vinil, com sua música prensada, vai ficar no planeta bem mais tempo que você. Ao prensar um vinil, um artista entra de fato no patrimônio cultural do país. Para mim esse lado é muito importante. É a única maneira de deixar um recado para a história e para as futuras gerações”, opina Fred.

Para 2018, a Goma Gringa planeja lançar pelo menos um disco inédito por mês, sempre com músicas ligadas à diáspora africana. E, para paixão deste jornalista, a dupla não descarta trazer no futuro todo o catálogo de Fela Kuti para cá.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.