Arte

Retrato de Época

Os cineastas Vanessa Hollande e Wilson Philippe utilizam em seus curtas câmeras Super 8 e lindas modelos para recriar com perfeição os anos 1970

por Artur Tavares 22 Mai 2017 14:13

Uma morena deslumbrante aparece à vontade, de camiseta e calcinha, logo na primeira cena. O telefone – fixo – toca. Ela atende e começa a ouvir os lamentos de Matheus, um cara que pisou na bola com ela. Sem meias palavras, a garota dá um fora nele. Machista, ele se surpreende com o tom dela e ganha mais desaforos e o telefonema desligado na cara. Ela levanta e desfila seu corpo escultural pelo apartamento. O telefone toca novamente. É Jana que está ligando de um orelhão no calçadão de Ipanema, convidando-a para se juntar a ela mais Pamela, outra amiga, para uma tarde na praia. Essa é a premissa do curta-metragem Garotas de Verão, publicado há um ano no canal da dupla Wiissa no Vimeo, com o bairro carioca como cenário e os anos 1970 como ambientação. Na trilha sonora dessa deliciosa e sensual homenagem ao Brasil da Tropicália estão as canções Baby, na voz dos Mutantes, Vou Recomeçar, de Gal Costa, e O Caminho do Bem, de Tim Maia em sua fase Racional.

Nascidos nos anos 1990, os cineastas norte-americanos Vanessa Hollande, 22 anos, e Wilson Philippe, 23 – que se autointitulam Wiissa e namoram – são obcecados pela cultura da década de 1970. A dupla, que cresceu no auge do Flickr e do Tumblr, percebeu que as fotos tiradas com filmes analógicos tinham a estética que procuravam para seus curtas, e passou a gravar em câmeras Super 8 e Super 16. “Compramos nossa primeira câmera, uma Pentax K1000, e nunca voltamos para o digital. O Super 8 foi nossa opção mais barata de recriar aquela fotografia em vídeo”, explica Vanessa. “Todos os temas em nossas fotos e filmes são completamente verdadeiros em nossas vidas. Nós mesmos somos como groupies daquela época. Gostamos de vestir roupas coloridas e calças boca de sino. Nosso trabalho é um reflexo do que amamos.”

Filha de pai brasileiro, Vanessa tinha 14 anos quando conheceu e começou a namorar Wilson, em Miami. Para ela, Wilson era Wii. Para ele, Vanessa era Ssa. “Nós sonhávamos em um dia ter uma empresa criativa chamada Wiissa. Aprendemos sobre cinema e fotografia juntos, tirando fotos nossas e dos nossos amigos. Ao longo do tempo, isso foi além do hobby”, conta ele que atualmente possui 35 vídeos produzidos. Memories, Tão Longe de Mim, Immaculate High e Stardust Tropics são alguns dos muitos que têm a caracterização de época como traço marcante. Móveis, objetos, vestuário, até mesmo a escolha visual de atores e atrizes, tudo casa com a estética atingida pelo filme analógico. “Muitas pessoas fazem perguntas como: ‘onde você encontrou esse quarto maravilhoso?’ E a resposta é sempre: nós o montamos!’ Encontrar objetos perfeitos para o design e a estilização da cena é uma das partes favoritas do nosso trabalho. Compramos mais roupas para nossas filmagens do que para nós mesmos. Quando vemos qualquer peça parecida ou igual a coisas antigas, como um telefone vintage, uma revista ou um acessório, compramos e guardamos para um projeto. Também temos boa relação com algumas marcas, que nos emprestam peças para filmar”, explica Vanessa.

O Wiissa também trabalha com moda e música. O curta mais recente deles é Midnight Ramblers, um mockumentary sobre groupies vivendo o frenesi das bandas nos anos 1970 – entre elas está a atriz brasileira Nicole Della Costa, que atualmente vive em Nova York. E a dupla também dirigiu o clipe de Day Go By, da cantora Karen O, do Yeah Yeah Yeahs, fez parcerias com os Strokes e, há um mês, lançou Super Star para Roberto Cavalli, um filme apresentado no Fashion Film Festival Milano, na Itália. Entre os países favoritos do casal para produzir está o Brasil. “Gostaria que o mundo entendesse mais sobre o Brasil, sua beleza e, especialmente, sua música. Todos saem perdendo se não conhecerem o país a fundo. Filmar foi nossa maneira modesta de mostrar um pouco do que amamos, como a natureza. Quando vamos para o País, Wilson e eu sempre passamos horas e horas no mar. As manhãs e o ar matinal são os melhores. Além dos brigadeiros, é claro. Tornou-se minha sobremesa favorita no mundo. Estou literalmente viciada!”

Vanessa visita São Paulo e o Rio de Janeiro pelo menos uma vez por ano. Ela sabe falar português, mas hoje sente vergonha de sua pronúncia. “Era minha primeira língua até entrar no colégio, nos Estados Unidos.” Ela e o namorado, com quem divide o amor pela nossa música, voltam em janeiro, quando planejam gravar gravar por aqui. “Tim Maia está entre os meus cinco artistas favoritos. Também gostamos muito de Os Brazões, Gal Costa, Novos Baianos e Quarteto em Cy”, diz ela, que não descarta a ideia de passar um tempo em terras brasileiras. “Precisamos morar um tempo por aí, assistir a muitos shows. Daquilo que ouvimos da nova música brasileira, amamos Rodrigo Amarante e Boogarins, e sempre dançamos um pouco de funk.”

Em maio, Wilson termina a School of Visual Arts, enquanto Vanessa se forma na New York University. Outra opção ao Brasil é voltar para Miami. “É um local que serve perfeitamente como base. De lá, podemos viajar para Europa, Los Angeles, Nova York e Brasil.” Das praias de lá ou as daqui, a certeza é que o Wiissa continuará reescrevendo a história com sua arte cinematográfica cativante, suas belas mulheres e seu gosto pelos ensolarados tempos mais simples, cheios de encontros, desencontros e diversão.

os, desencontros e diversão.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.