Arte

Realidades Alternativas

A ficção científica sempre foi um gênero que levou a mente humana a chegar mais longe, despertando a criatividade em prol do avanço das sociedades

por Artur Tavares 24 Ago 2017 13:49

O retrato é mais ou menos este: quando eu tinha 12 anos, minha professora de gramática, percebendo minha enorme curiosidade pelo funcionamento do mundo e o interesse pela linguagem escrita, me emprestou Os Invasores de Corpos, clássico escrito pelo norte-americano Jack Finney em plena Guerra Fria. Devorei o livro sem perceber a metáfora criticando o regime soviético, que só entendi na vida adulta. Pouco depois encontrei em uma das estantes da minha casa A Zona Morta, de Stephen King, em que um homem recém-acordado de um coma ganha o poder de prever o futuro, percebendo que um benevolente político se tornaria presidente dos EUA e o causador de uma guerra nuclear.

Isso foi há 17 anos. Nesse meio tempo, virei um tremendo nerd de histórias em quadrinhos, e até hoje as histórias do Quarteto Fantástico são as minhas preferidas – não as originais de Stan Lee e Jack Kirby, embora elas sejam canônicas, mas a reinterpretação de John Byrne, o homem que redefiniu o Superman nos anos 80. Descobri Philip K. Dick com a adaptação cinematográfica de Blade Runner, até hoje um dos meus filmes favoritos. Isaac Asimov veio mais tarde, quando dei uma chance ao russo radicado nos Estados Unidos após a pífia interpretação de Will Smith para Eu, Robô. Cheguei a Ray Bradbury também por Stephen King: é um de seus autores favoritos. O cinema ainda me trouxe o ultrafilosófico 2001: Uma Odisseia no Espaço, e sua continuação, 2010: O Ano em que Faremos Contato. Nunca li as outras duas continuações de Arthur C. Clarke, uma pena.

Com os nerds se tornando mainstream na década passada, principalmente pelos super-heróis levados às telonas, editoras brasileiras como a Aleph encontraram nos fãs da ficção científica um porto seguro na venda de livros. As livrarias se encheram de clássicos há muito fora de catálogo, alguns deles tornando-se best-sellers de tiragens impressionantes e reedições sem fim, como é o caso da Trilogia da Fundação.

Infelizmente, não me lembro o nome daquela professora de gramática que me colocou nesse mundo fantástico. Queria agradecê-la por ter me aberto um mundo que vai além das histórias que parecem improváveis: na maioria das vezes, um livro de ficção científica nada mais é do que um estudo sobre nossas sociedades no tempo presente. A seguir, 12 das minhas obras favoritas do gênero.

SOLARIS
Stanislaw Lem | Aleph
É um dos romances mais cerebrais já escritos. O planeta-oceano inteligente que dá nome ao livro mexe com os exploradores de uma estação espacial trazendo figuras importantes de seu passado. O psicólogo Chris Kelvin tem que confrontar sua esposa falecida enquanto perde sua consciência. Aterrorizante e reflexivo.

1984
George Orwell | Companhia das Letras
A obra foi concebida por George Orwell para criticar o totalitarismo político – de qualquer ideologia. Winston, funcionário do Ministério da Verdade, percebe que a “verdade” do governo não é tão honesta. Enquanto tenta criar uma ideologia própria, passa a ser caçado pelo sistema e o Grande Irmão. Prepare-se para o final e pense nos dias de hoje.

OS INVASORES DE CORPOS
Jack Finney | Nova Cultural
Trata-se da história de uma cidade californiana invadida por ETs sem emoções que substituem os moradores dali. É na verdade uma metáfora sobre a perda de individualidade dentro do regime socialista da União Soviética, tema presente na sociedade americana na época da publicação, 1954.

FRANKENSTEIN, OU O MODERNO PROMETEU
Mary Shelly | Darkside
Antes de a ficção científica ser sinônimo de futurismo, a inglesa Mary Shelly escreveu Frankenstein em um ambiente vitoriano. A história do monstro sem nome e de seu criador é uma crítica às experimentações médicas do renascimento intelectual do século 19. Obra-prima com toques de terror, horripilante por sua análise até os dias atuais.

AS CRÔNICAS MARCIANAS
Ray Bradbury | Biblioteca Azul
Assim como Fundação, esta obra de Ray Bradbury fala sobre o espaço, mas olha para a evolução da história humana. As pequenas narrativas que compõem As Crônicas Marcianas começam com o primeiro contato de astronautas com Marte, mas poderiam falar sobre os colonizadores europeus que destruíram os povos nativos americanos. Uma reflexão de primeira.

FUNDAÇÃO
Isaac Asimov | Aleph
Nenhuma obra de Isaac Asimov tem tanta profundidade filosófica quanto a trilogia da Fundação. Nos livros, o inventor das Leis da Robótica conta como a queda do Império Galático deu origem a uma sociedade interplantária completamente nova. É uma comparação com a história do mundo desde o fim do Império Romano até os horrores da Alemanha nazista.

DUNA
Frank Herbert | Aleph
Considerada a melhor sci-fi já escrita, Duna causa em mim uma interpretação que seu autor talvez não tenha pensado em 1965. O livro fala sobre Paul Atreides, herdeiro do trono de um planeta desértico, que vive sob uma condição messiânica. Seu final me parece uma ode à jihad, mas pode ser interpretado como um estudo sobre a devoção.

INCAL
Alejandro Jodorowsky & Moebius | Devir
HQ majestosa, Incal é o resultado da colaboração entre o cineasta Jodorowsky e o francês Moebius. Eles trabalharam em uma adaptação cinematográfica de Duna, que nunca saiu do papel. Então, utilizaram esboços do roteiro e croquis de cenários para contar a história do detetive John Difool, que se envolve em uma trama messiânica espacial.

PIQUENIQUE À BEIRA DA ESTRADA
Arkadi e Boris Strugatski | Nunca publicado no Brasil
Os irmãos Strugatski são lendas da ficção científica da União Soviética, mas desconhecidos no Brasil. O livro conta a história de alienígenas que vieram à Terra dispensar lixo no planeta, para desaparecer e nunca mais voltar. Partes desses dejetos têm fama de realizar os desejos de quem encontrá-los, gerando um câmbio negro entre os humanos.

2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO
Arthur C. Clarke | Aleph
Esqueça o final psicodélico da adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick. No romance de Arthur C. Clarke, a convivência dos astronautas com o robô inteligente Hal 9000 é mais longa – vai até Saturno –, enquanto a existência dos extraterrestres-monolitos é melhor explicada como a gênese da consciência humana. Estamos preparados para descobrir o mistério original?

FLUAM MINHAS LÁGRIMAS, DISSE O POLICIAL
Philip K. Dick | Aleph
Um dos gênios mais explosivos da literatura moderna norte-americana, Philip K. Dick teve uma vida movida a drogas, subterfúgio que deu tom a toda sua obra. Em Fluam Minhas Lágrimas, um homem acorda e percebe que não existe mais na vida daqueles que o cercavam até a noite anterior. Um estudo sinistro sobre como psicotrópicos podem mudar o cérebro humano.

A TORRE NEGRA
Stephen King | Suma das Letras
Obra que permeia toda a carreira do Mestre do Terror, A Torre Negra é um épico em sete volumes que começa como uma epopeia com toques de O Senhor dos Anéis, mas que se desenvolve explorando planos de existência, metafísica e espiritualidade. Stephen King insere personagens de outros de seus livros e a si mesmo na história durante a jornada de Roland Deschain.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.