Arte

Rato de sebo

Ator e fã de futebol, Dan Stulbach passava tardes da adolescência lendo tudo o que aparecia nas mãos. Conheça suas obras favoritas

27 Nov 2017 12:26

Escrevo este texto depois de fazer a lista dos livros. Já penso nos que deixei de fora, já quero mudar tudo.

Quando eu era garoto, me refugiava na biblioteca. Eu era o menino da Valeria, bibliotecária carinhosa e paciente. Se eu levasse os livros para casa, dava zebra. Me enrolava e atrasava para devolver, então decidimos que era melhor gastar meu intervalo ali e não levar nada. O plano só não dava certo com os discos de vinil. Sim, pegávamos vinis emprestados, para devolver em cinco dias, e eu atrasava sempre. A mesada derretia ali nos vinis e no meu esquecimento, e é assim até hoje.

Nunca li tanto como naquele tempo, garoto e adolescente. Os livros foram meus amigos e refúgios. O futebol e os livros. A música e o rádio. A junção de tudo, o futebol de botão. Sempre li rápido, fossem os clássicos, os policiais. Foram gibis à beça e revistas também. Era a época das semanais, a Placar, a Manchete, e os jornais, claro.

Nunca fui um intelectual, foi tudo um namoro. Os livros me iluminavam e eu os resgatava da solitude. Daí veio o desejo da biblioteca em casa, da coleção, feita dos preferidos, daqueles para ler antes de dormir, dos que me acompanhariam em viagem, e, pior, daqueles que eu leria em uma tacada só. Estes eram os piores, porque normalmente surgiam como dica de alguém. Eu tinha que gostar, havia um peso nessa relação. Eram livros que eu já ia ler meio tenso. Muito por isso, só passei a falar de livros quando me perguntavam, sabendo que cada um tem o seu, e que não há um que sirva para todo mundo.

Fora os presentes e os emprestados que nunca devolvi, se eu comprava um livro, lia. Depois, com o tempo, me embananei, e claro, comprei muito mais do que passei a ler. É que adoro livrarias, sou daqueles que vão sempre, e em todas as cidades que passo. É como um abraço que me faz bem. Deve ser a mistura disso tudo.

Em toda casa que morei tive a minha biblioteca. Olho para cada um dos livros e me lembro de quando li. A lista daqui é uma mistura do que me tocou e dos autores que penso quando recomendo a alguém de quem gosto (quando perguntado). É assim, uma lista carinhosa, feita olho no olho, sincera e sem pretensão de parecer inteligente, culta ou qualquer coisa. É uma lista. Uma lista minha para você.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Milan Kundera | Cia. das Letras
Foi o primeiro livro que li dele e o que me fez ler todos os outros. Teve o filme na mesma época, que também adorei. O jeito de escrever e a descrição da personalidade, dos pensamentos. Para mim, não foi o primeiro a falar de amor, mas o primeiro a falar de relação, do casal, e de um jeito profundo, delicado, exato e elegante. Sem concessões, me vi ali.

O GÊNIO DO CRIME
João Carlos Marinho | Global
O livro mais legal da minha infância. Li umas 200 vezes, adorava aquela turma. O prazer da leitura foi despertado ali.

O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO
J.D. Salinger | Editora do Autor
Li na idade do personagem, foi uma pancada. Obrigatório na lista dos melhores livros americanos de todos os tempos, foi para mim a primeira obra de impacto, de mudança. Não fui o mesmo depois que li.

TODO AQUELE JAZZ
Geoff Dyer | Cia. das Letras
Sou um amante do jazz e este livro conta, meio ficção, meio realidade, algumas histórias desta galera – escolhidas a dedo. A sorte, a dor da genialidade, a solidão, o sucesso e o fracasso. É o retrato perfeito da época. É para ler, botar o vinil e perceber como tudo mudou e muda tão rápido.

LOLITA
Vladimir Nabokov | Alfaguara
Tinha que ter um russo na lista. Podia ser Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov, Púshkin. Escolhi Lolita porque de alguma maneira traz influência de todos eles. Seja na provocação, na coragem, ou na escrita perfeita. Nabokov era craque, escrevia em russo e inglês, e esta obra transcende, virou expressão e está em qualquer lista de melhores ficções que se faça.

1Q84
Harumi Murakami | Alfaguara
Murakami é japonês, ex-dono de loja de discos e agora corredor de maratona. Todo ano dizem que ele vai ganhar o Nobel, e ele não ganha. Não importa, todos os seus livros são ótimos. Aqui, constrói um universo meio mágico, no qual você vai embarcando e não quer sair mais.

O COMPLEXO DE PORTNOY
Philip Roth | Cia. das Letras
O livro mais conhecido dele, mas são tantos e tantos bons que poderia ter escolhido qualquer um. Junto a Ian McEwan (Reparação, entre outros) é o escritor de que eu mais gosto.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Machado de Assis | Editora Montecristo
É o melhor livro do nosso maior escritor. Simples assim. Não há nada mais a ser dito.

SUBMUNDO
Don DeLillo | Cia. das Letras
Vários personagens em épocas diferentes, um livro meio épico, considerado um dos melhores pós-11/9. Destes que será sempre melhor que qualquer filme feito dele, de tanta história, tanto conflito. Uma viagem intensa pelas mãos de um ótimo escritor.

MAUS
Art Spiegelman | Cia. das Letras
É diferente de tudo, uma história em quadrinhos. O autor descreve a vida de seu pai, judeu polonês, durante a Segunda Guerra. Criativo, cruel e pessoal. Todos os personagens são retratados como bichos. Os alemães são gatos; os poloneses, porcos; e os americanos, cachorros. Inventaram um Pulitzer para ele porque não conseguiram definir se era obra de biografia ou ficção.

GRANDE SERTÃO: VEREDAS
Guimarães Rosa | Editora Nova Fronteira
Um dos nossos grandes escritores, este é meu livro preferido dele. Tem o jeito de escrever que te leva para aquele mundo. Você fecha o livro e está falando igual. Emocionante, cruel, brasileiro. Profundamente brasileiro.

LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa | Cia. das Letras
Assinado por Bernardo Soares, uma das personas de Pessoa, é um livro não livro, cheio de citações e textos. É uma autobiografia, uma coleção de ideias. É tanta coisa bela junta que nunca li de todo, sempre fui e voltei, meio que um dicionário involuntário de descobertas da vida. E a cada vez que volto, descubro algo diferente.