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Ponte Aérea

Saraus antológicos, ameaças sinistras e elogios recorrentes marcaram a trajetória da Livraria da Travessa, que acaba de ganhar uma filial paulistana

5 Fev 2018 11:28

“Seu filho da p.!”, berrou o atendente ao telefone, antes de batê-lo no gancho. Diante do espanto dos presentes na livraria Muro naquela tarde de 1981, o funcionário se viu obrigado a dar alguma explicação: “Um cara ligou aqui dizendo que ia jogar uma bomba”. Não foi a única ameaça do gênero que o lugar instalado no subsolo de uma galeria na Praça General Osório, em Ipanema, recebeu naqueles dias. Começaram quando a livraria passou a vender ingressos para o show de música popular em comemoração ao Dia do Trabalhador, marcado para dali alguns dias, no Centro de Convenções Riocentro.

O que aconteceu no dia do evento, 30 de abril, repercute até hoje: contrários à abertura política que o país vivia após 17 anos de regime militar, o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado estavam prestes a plantar bombas no pavilhão quando uma delas explodiu no Puma GTE em que estavam. O primeiro morreu rapidamente e o segundo ficou ferido. Logo depois, outra explosão ocorreu na miniestação que fornecia energia para o Riocentro. Passados 36 anos, o mineiro Rui Campos, fundador da Muro, lembra com detalhes daquela época. “É bem provável que tenha sido o sargento Guilherme quem fez aquele telefonema”, diz ele, que transformou o negócio na Livraria da Travessa, uma das mais queridas do país.

Rebatizado com o nome atual em 1986, quando surgiu a sede na Travessa do Ouvidor, no centro do Rio, o empreendimento soma hoje sete unidades na capital fluminense. Em 2014, ganhou sua primeira filial em outro estado, no município paulista de Ribeirão Preto. Em setembro passado, instalou- se em São Paulo, na celebrada nova sede do Instituto Moreira Salles (IMS), situada no número 2.424 da Avenida Paulista.

Criada em 1975, a Muro ocupava o endereço deixado pela filial da livraria Carlitos, em Copacabana, pertencente a um primo da então namorada de Campos. Veja o azar deste último: foi só ele deixar sua Belo Horizonte natal para trabalhar na filial, a convite do sujeito, para ela fechar as portas em seguida. O jeito foi assumir o ponto, rebatizado de Muro, nome da razão social da livraria. “Nunca soube o porquê do nome”, confessa Campos. Com o entusiasmo de seus 20 e poucos anos, ele logo converteu o empreendimento em um dos polos de cultura mais fervilhantes daqueles tempos sombrios. Era o local onde os poetas independentes vendiam seus livros, confeccionados por eles mesmos, com a ajuda de mimeógrafos.

Em parceria com o grupo Nuvem Cigana, formado pelos poetas Chacal, Charles, Bernardo Vilhena e Ronaldo Santos, Campos criou uma feira que marcou época, a Artimanhas em Geral, conhecida pelos saraus literários. “Tudo com muita loucura, porque era a regra”, entrega o livreiro, que está com 63 anos. A nova Travessa não compra briga com as grandes livrarias de São Paulo. Comercializa apenas 4 mil títulos, todos ligados às artes plásticas, a maioria sobre fotografia, o foco principal do IMS. O formato espelha as unidades temáticas que a rede montou nas quatro últimas edições da Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, e na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) desde 2013. A expansão paulistana coincide com tempos nada fáceis para o setor. “Apostamos na retomada do crescimento, mas estamos estagnados há dois anos”, revela Campos, que hoje tem oito sócios. É principalmente com livros físicos, que correspondem a 80% do faturamento da rede, que ele pretende voltar aos áureos tempos – a porcentagem restante se deve à venda de CDs, DVDs e itens como cadernos e bloquinhos. “Os livros não vão morrer”, assegura ele.

É por isso que o empresário sempre se recusou a vender, ao contrário de muitos concorrentes, artigos que nada têm ver com livros, como videogames. “Nosso negócio é incentivar a leitura e fomentar novos leitores, e não o oposto”, completa. “Como se diz em Minas, seria como amarrar cachorro com linguiça.”