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O mercado de livros independentes ganha fôlego com a chegada de duas novas editoras

21 Ago 2017 10:47

Por Daniel Salles

Só quem não desgrudou da Netflix por um segundo nos últimos anos pode dizer que a cultura vive dias promissores no país. Várias orquestras, como a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, foram extintas. Diversos museus e centros culturais, a exemplo do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, precisaram demitir boa parte dos funcionários. E o orçamento de inúmeras secretarias de cultura, como a da capital paulista, foi drasticamente reduzido. Num cenário desses, você abriria uma editora de livros?

A pergunta passou várias vezes, nos últimos meses, pela cabeça dos editores Flávio Moura, André Conti e Leandro Samartz, da agente literária Ana Paula Hisayama, do administrador Marcelo Levy e do cineasta e artista plástico Alfredo Nugent Setubal. Em janeiro deste ano, o sexteto anunciou que irá montar uma editora sediada na Vila Madalena, em São Paulo. Batizada de Todavia, promete lançar o primeiro livro, sobre o qual mantém sigilo, no mês de julho. Para 2017 são previstos 17 títulos e a meta é chegar a 60 lançamentos anuais. O foco será ficção, não ficção e quadrinhos, de autores daqui e estrangeiros.

O mercado editorial aguarda a estreia com atenção. Isso porque cinco dos sócios, tirando Setubal, deram expediente numa das mais bem-sucedidas editoras do País, a Companhia das Letras – Moura e Conti até janeiro passado. “Não sentíamos falta de nada na Companhia, mas percebemos que há espaço para uma editora de porte médio dedicada ao melhor da ficção e não ficção”, afirma Samartz. “Vamos investir todos os nossos recursos e ideias para que cada lançamento se mantenha vivo ao longo da trajetória da Todavia.” O grupo convenceu três investidores a embarcar na empreitada, cujos valores não são divulgados: Guilherme Affonso Ferreira, presidente do fundo de investimentos Teorema; Luiz Henrique Guerra, sócio da gestora de recursos Indie Capital; e Alfredo Setubal, presidente da holding Itaúsa. O último é filho de Olavo Setubal (1923-2008), banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, e pai de Alfredo Nugent. Ele diz que não entrou no negócio só para ajudar o filho. “Achei bacana fazer parte de um projeto com impacto social. E vejo espaço para um retorno razoável do investimento”, declarou. “O livro não está morrendo”, emenda Samartz. “Atravessamos uma crise no Brasil, mas o mercado editorial ainda tem muito para crescer.”

Não é pouca gente que aposta nisso. Florencia Ferrari, Elaine Ramos e Gisela Gasparian que o digam. Elas estão à frente da Ubu Editora, que debutou em setembro do ano passado. Como a turma da Todavia, não são neófitas no ramo. As duas primeiras trabalharam numa das editoras mais incensadas do País, a Cosac Naify, fechada em 2015 – Florencia como diretora editorial; Elaine como diretora de arte. Ex-executiva de investimentos, Gisela é neta do fundador da editora Paz e Terra, Fernando Gasparian. “O fim da Cosac abriu um vazio muito evidente”, diz Florencia. “A ideia de fazer uma editora com uma intenção cultural semelhante, mas com uma estrutura muito enxuta, pareceu factível.” O trio trabalha numa sobreloja no Largo do Arouche, no Centro de São Paulo, ao lado de quatro funcionárias e duas estagiárias. Quinze livros foram lançados até agora, em geral de arquitetura, crítica de arte e antropologia, a exemplo da edição crítica de Os Sertões, de Euclides da Cunha, organizada pela ensaísta Walnice Nogueira Galvão. Dez são relançamentos de títulos publicados pela Cosac – ao todo, a Ubu adquiriu os direitos de publicação de 35 obras da finada editora de Charles Cosac.

A atenção dada à Ubu e à Todavia motiva outras editoras independentes a não jogar a toalha. “Nosso grande desafio é a divulgação e a distribuição”, diz João Varella, um dos sócios da Lote 42. Fundada em 2013, ela funciona na Santa Cecília, em São Paulo, e já lançou 21 títulos. Luiz Vieira faz coro a Varella: “Ao distribuir para livrarias e lojas, a editora fica com 50% do valor de capa, e há custos ocultos, como transporte e emissão de notas”. Ele é um dos sócios da Ikrek, criada há sete anos em Pinheiros, São Paulo, e com 12 obras no catálogo. “É um trabalho árduo, mas altamente recompensador.”