Arte

One Man Show

Donald Glover está a um passo de ser engolido pelo mainstream. Aos 33 anos, o ator, rapper, produtor, e humorista americano vai estrelar um spin-off de Guerra nas Estrelas

6 Jul 2017 11:57

Por Bruno Porto

Pelos piores motivos possíveis, os Estados Unidos só falam de um certo Donald. Aquele mesmo, que faz George W. Bush parecer um Churchill. Outro Donald também tem chamado bastante a atenção nos EUA, mas por razões boas. Trata-se do ator, rapper, produtor musical, humorista e roteirista californiano Donald Glover, de 33 anos. Depois de passar um tempo sendo apreciado essencialmente pelo público jovem e moderno americano, Glover está a um passo de ser engolido pelo mainstream. Isso deve acontecer de vez em 2018, quando ele viverá uma versão jovem do personagem Lando Calrissian no filme dedicado a Han Solo, mais um spin-off da saga Guerra nas Estrelas. O anúncio da sua escalação para o papel, em outubro do ano passado, foi sucedido por uma explosão de memes comemorando a notícia na internet.

Glover começou a conquistar a intelligentsia hipster quando foi recrutado por ninguém menos que Tina Fey para ser um dos roteiristas do saudoso seriado 30 Rock (2006). Detalhe: ele tinha 23 anos. Três anos depois, seu rosto começou a ficar conhecido graças ao papel de Troy Barnes, personagem de outra série humorística premiada: Community. Numa das cenas memoráveis do seriado, o estudante universitário Troy faz um rap improvisado sobre uma lição de espanhol. A naturalidade com que brincava com palavras (mesmo em espanhol) era fácil de explicar: naquela época Glover já dividia seu tempo entre TV, espetáculos de stand-up comedy e uma carreira ascendente como rapper. Depois de ver seu público como músico aumentar consideravelmente, cortesia das mixtapes excelentes que gravava, ele decidiu lançar seu primeiro álbum de verdade, Camp, de 2011. Quando estava no estúdio ou no palco cantando, passou a usar o nome Childish Gambino, adotado até hoje.

Se de início sua produção musical flertava com seu lado comediante, gerando raps meio brincalhões e nonsense, na linha dos seus amigos do Das Racist, aos poucos Glover/Gambino foi bebendo mais do soul, do pop e do funk dos anos 1970. Um dos destaques do CD, a nervosa Bonfire (“Cara, por que todo ator negro tem que fazer um pouco de rap?/ Eu não sei, só que sou o melhor deles todos”, diz a letra), não faria feio em Yeezus, de Kanye West. Em 2013, ele decidiu deixar Community para trás, focando no hip hop e lançando seu segundo CD, Because the Internet. O resultado: virou disco de ouro, com músicas no top ten americano e uma indicação ao Grammy de melhor álbum de rap. No ano seguinte, um EP novo, Kauai, trazia uma das melhores músicas já gravadas por ele, a viciante e deliciosamente pop Sober.

Mas o ápice criativo de Glover se deu ano passado, quando ele brilhou tanto na TV quanto na música. Dia 6 de setembro estreou no canal pago FX a minissérie Atlanta, criada, escrita e estrelada por ele. Dosando um humor peculiar com crítica social isenta de muitas bandeiras, ela retrata a cena rap da cidade americana pelos paradoxos dos seus personagens. Sucesso de crítica, rendeu a ele o Globo de Ouro de melhor série cômica de 2016. Logo depois da estreia de Atlanta, o mundo ficou sabendo que Glover viveria Lando no longa-metragem sobre Han Solo. Mas não bastou para ele. Dia 2 de dezembro era lançado mais um disco de Gambino, Awaken, my love!, uma homenagem vibrante ao funk e ao R&B dos anos 1970. “Childish Gambino não invoca os confortos da nostalgia. As canções (do disco) reconhecem que, apesar de todas as mudanças de estilo nas últimas décadas, outras condições persistem – necessidades humanas e fraquezas, pressões sociais – e que a música ainda pode
 enfrentar esses problemas sem interromper a festa”, elogiou o crítico Jon Pareles, do New York Times. Basta ouvir as faixas Me and Your Mama e California para ver que ele está certo.

Glover – que também estará no novo filme do Homem-Aranha, previsto para este ano – já ganhou status de fashion icon. Uma foto sua para a revista Wired usando um florido casaco Gucci viralizou rapidamente. “Casacos foram inventados para que pudéssemos ter essa foto de Donald Glover”, cravou o site de cultura pop Vulture.