Arte

O lado sombrio do ser humano

“Um Reflexo na Escuridão”, publicado pela Aleph, é um suspense noir junkie de primeira

por Artur Tavares 20 Jul 2016 13:04

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A vida na sociedade moderna é, antes de tudo, um exercício do cotidiano. Acordar, ir ao trabalho, cumprir um horário determinado que se estende da manhã até a noite, quando o expediente tem fim. Nela, as pessoas vêm e vão com habitual sobriedade, dedicadas a dar seus melhores até que se bata o cartão.

É após o período funcional do dia que as pessoas se dedicam a curtir seus prazeres hedonistas. Não importa se estamos falando de gastar o tempo comendo em um bom restaurante, tomando um bom vinho, uma cerveja gelada, ou se as pessoas preferem utilizar estas horas livres antes do sono para fazer uso de substâncias malvistas, ou até mesmo proibidas.

Para o autor norte-americano de ficção científica Philip K. Dick, a sociedade pode muito bem ser divida por dois estratos: os caretas e os drogados. Dick, um produto dos hippies de São Francisco dos anos 1960, viveu intensamente entre usuários de drogas, e foi com base neles que construiu grande parte de sua vasta e premiada obra. Só parou quando danificou permanentemente seu pâncreas, pouco antes de morrer aos 53 anos, vítima de um acidente cardiovascular.

Em Um Reflexo na Escuridão, lançado pela Editora Aleph, Philip K. Dick analisa a vida de drogados desajustados, que deixaram a sociedade de lado e lançaram-se ao abuso permanente de substâncias ilícitas.

Ambientado em um possível futuro de 1994 – a obra foi escrita em 1977 –, no qual há a profusão da chamada Substância D, o livro conta a história de Fred, um agente da divisão antidrogas da Polícia de Los Angeles que vive infiltrado na comunidade de usuários dali. Sob o nome de Bob Arctor, ele próprio faz uso pesado e trafica a Substância D, tudo a fim de encontrar quem é o fabricante da droga que vem assolando os Estados Unidos.

A Substância D, como muitas drogas psicotrópicas, acaba afetando a produção de serotonina e outros hormônios do corpo. Ela também gera desconexão entre os dois hemisférios cerebrais, fazendo com que seus usuários criem personalidades díspares, independentes. Envolto em uma trama noir junkie, Fred/Bob criam uma paranoia e passam a viver sob pressão constante de suas próprias mentes, enquanto tentam descobrir se há de fato alguém tentando matá-los, ou se tudo não passa apenas de ilusão.

Existem duas camadas de leitura nas obras de Philip K. Dick. Seus livros são fáceis de entender pelos caretas, mas expõe vastidão única entre aqueles que já utilizaram ou ainda usam drogas. Um Reflexo na Escuridão não é diferente.

Para aqueles que se contentam com uma vida dentro da lei, o livro é um aviso sobre as possibilidades de degradação moral e física que as drogas podem (ou inevitavelmente vão) causar. Já para os que guardam dentro de si “um lado sombrio”, a obra atinge caráteres tragicômicos com as transcrições dos diálogos non sense dos personagens sob os efeitos não só da Substância D, mas de LSD e outras drogas; com as paranoias adquiridas por usuários e traficantes; pela impotência sexual da garota de Arctor, uma menor de idade viciada em cocaína.

Dick, que escreveu a obra já em sua fase careta, não cria uma fábula moralista em Um Reflexo na Escuridão. Em nenhum momento de sua vida ele relegou a importância que as drogas tiveram em sua obra, nem nas mudanças sociais alcançadas pela geração dos anos 1960. O livro, como ele mesmo deixa claro em uma nota final, é uma homenagem a todos aqueles que, como ele próprio, não souberam separar a vida real do prazer que estas substâncias farmacêuticas ilícitas trazem às pessoas. Alguns morreram antes da publicação ter sido escrita ou lançada, outros, como o próprio autor, sofriam de problemas de saúde severos nos idos de 1977.

Como nota final, vale ressaltar que a obra foi adaptada ao cinema em 2006 pelo cineasta Richard Linklater, de Boyhood, e chegou ao Brasil sob o nome de O Homem Duplo. Tem em seu elenco Keanu Reeves, Robert Downey Jr. (que tinha acabado de deixar um tratamento para se livrar das drogas), Winona Ryder e Woody Harrelson – estes dois últimos também já tiveram problemas com drogas ao longo de suas carreiras, enquanto Reeves era melhor amigo do ator River Phoenix, que morreu de overdose na casa noturna de Johnny Deep, The Viper Room. A escolha dos atores e atrizes parece ter sido feita a dedo para dar mais veracidade aos personagens que saíram da mente de Philip K. Dick

Para os interessados nas obras do norte-americano, Um Reflexo na Escuridão é um bom ponto de partida, já que é um livro menos confuso do que outras republicações lançadas pela Editora Aleph, com exceção talvez de O Homem do Castelo Alto, um de seus escritos mais premiados. Mas, se você estiver a fim de uma dose mais forte, uma brisa mais intensa, corra para adquirir Valis, ou então Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial.

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Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.