Arte

O Complexo de Todos Nós

Um dos maiores clássicos de Philip Roth, O Complexo de Portnoy traça um retrato dos filhos do século XX

por Artur Tavares 28 Jun 2016 16:45

O bem-sucedido Alexander Portnoy leva uma vida notável. Tem um cargo de respeito no departamento de assistência social de Nova York. No auge de seus 33 anos, leva uma vida independente. Como solteiro de boa educação, tem a chance de se relacionar com as mais belas mulheres da cidade, entre elas algumas que lembram estrelas de cinema. Mas, sua postura “ética e altruísta” esconde do mundo uma vida cheia de culpas e perversões sexuais. Parece o personagem principal de 50 Tons de Cinza, apenas com profundidade literária.

A leitura de uma sessão de terapia entre Portnoy e seu médico, Dr. Spielvogel, determina que o paciente sofre de uma versão moderna do Complexo de Édipo. Em sua vida adulta, Portnoy luta não para conter o desejo sexual por sua mãe, mas para fugir de todas as neuras de sua criação, às quais, sem perceber, acaba inconscientemente se apaixonando e tornando-as suas.

Um dos maiores clássicos da literatura moderna, O Complexo de Portnoy foi publicado por Philip Roth no início de 1969. É uma comédia em primeira pessoa, em que o personagem principal desdobra desde sua infância até a vida adulta em um relato cândido, sem meias palavras.

O Complexo de Portnoy não arranca risos apenas por seu texto sagaz e pelas situações vividas por Alexander, e sim porque Portnoy sofre das mesmas agonias que muitos filhos do século XX.

Criado em um ambiente onde o pai passava o dia todo fora trabalhando, Portnoy era o “bebê” de sua mãe, uma dona de casa suburbana. Assim como muitas mães da vida real, esta era superprotetora.

Crescer sendo filho de uma dona de casa é um exercício constante de paciência. Pode fazer um calor de rachar, mas ela recomenda andar com uma blusa. O céu está azul e sem nuvens, mas não custa nada levar um guarda-chuva. São três quadras da sua casa até aquele bar onde você encontrará seus amigos no sábado à noite, mas é melhor pegar um táxi na hora de voltar, nunca se sabe.

“Cuidado com a boca suja.”
“Seus amigos são má companhia.”
“Dá um jeito de me ligar quando chegar no sítio (onde claramente não tem sinal de celular), senão vou passar o final de semana preocupada.”
“Essa menina não presta, você merece coisa melhor.”
E o tradicional: “não come camarão lá na praia, é perigoso.”

Talvez minha mãe entendesse O Complexo de Portnoy diferente de mim se lesse o livro. Ela diria que a mãe de Alexander tinha toda razão ao brigar com o garoto por sofrer uma (encenada) diarreia após comer hambúrguer com seu amigo ao invés do lanche que ela havia feito para o filho. Com certeza, se identificaria quando a mãe do personagem liga para uma amiga dizendo “meu defeito é ter sido boa demais com ele”, após um acesso explosivo do garoto. Já vi a minha fazer o mesmo.

Quando vai viajar para o exterior, Portnoy é questionado por sua mãe: “qual seu roteiro?”, no que responde, “ainda não sei.” O que segue é um rompante de temor, mais ou menos assim: “e se eu morrer quando você estiver fora? Como vão te achar pelo telefone? Você nunca vai saber!” Neste ponto da leitura, gargalhei. Não pelo surrealismo da situação, mas porque já passei (e ainda passo) por isso perto dos meus 30 anos.

Roth deixa claro em outra passagem do livro que o comportamento materno apresentado pela mãe de Portnoy não se trata de mero azar, e sim de uma convenção social determinada por tal estrutura familiar. Falando sobre sua adolescência, Alexander relata o suicídio de um dos seus colegas de classe. “Por que ele fez isso conosco?”, perguntam os pais da criança, desolados. Neste momento, o personagem questiona ao seu terapeuta o porquê de nunca haver uma análise inversa nestes casos, “o que fizemos para que ele tomasse esta atitude?”

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Do outro lado da criação de Alexander Portnoy está seu pai, um bem-sucedido vendedor de seguros para famílias de baixa renda, em sua grande maioria negros das periferias de New Jersey e Nova York, que são desprezados pelo próprio corretor.

Ausente no lar e na criação de seus filhos, o senhor Portnoy também apresenta o comportamento clássico de um parente do século XX. Joga as responsabilidades e decisões da criação para a esposa, sempre sob a desculpa de que faz sua parte colocando comida para dentro do lar.

A falta de traquejo do pai com o filho fica clara durante as poucas interações que os dois têm. Individualista, o senhor Portnoy chega a inverter papeis com o garoto durante uma corriqueira brincadeira dominical. Alexander faz o papel do lançador, enquanto seu pai rebate as bolas – a recompensa do vencedor, o estímulo que o menino poderia ter para criar uma aptidão que acaba nunca desenvolvendo.

Em suas digressões, Alexander fala enfurecidamente da imobilidade do pai. Como seria possível ele ouvir sua esposa chamando o filho de “meu amor” em plenos 33 anos e não fazer nada? Ele observaria com prazer uma relação incestuosa?

É devido a esta imobilidade que Alexander Portnoy torna-se uma quase antítese de sua figura paternal, trabalhando como assistente social preocupado com as efervescências do movimento negro nas periferias de Nova York.
No entanto, suas relações com outros seres humanos são bem menos altruístas do que em sua profissão. Lembrando de amigos adolescentes que ele imaginava que se tornariam fracassados na vida adulta, Portnoy tem uma quase crise histérica ao saber que eles são tão ou mais bem-sucedidos que ele próprio.

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Da criação estritamente judaica que obteve na infância, Alexander Portnoy decide levar uma vida adulta pouco preocupada com as tradições de seu povo, sendo as mulheres não-judias, as shiksas, o auge de seu hedonismo.

Duas delas são notáveis na vida de Alexander, e por motivos distintos. A primeira é uma garota católica com quem Portnoy pensa em se casar durante seus tempos na universidade. De boa família, bem educada, com classe, cultura e beleza. A segunda, por sua vez, uma mulher de corpo impecável, com quem o assistente social não consegue desenvolver sentimentos por considerá-la sexualmente vulgar.

Apelidada “carinhosamente” de “Macaca” por Portnoy, a mulher de corpo impecável teve infância sofrida, e acabou se dando bem na vida justamente por sua beleza. Alexander não odeia nela apenas sua vulgaridade, mas o fato de ela ser semi-analfabeta. Seu medo não é ser exposto pela “Macaca” por suas tentativas de ménage ou por suas próprias peculiaridades sexuais, mas que descubram a falta de cultura da namorada de um homem tão proeminente.

Ao final do seu relacionamento com a “Macaca”, Portnoy decide passar um tempo em Israel, tentando desvendar melhor a criação que teve. Lá conhece duas garotas diferentes, e broxa com ambas. A castração do ambiente familiar judaico evolui inconscientemente em Alexander ao ponto de todo um país causar-lhe repressão.

A conclusão implícita na obra de Roth é que, embora acreditemos em nosso ego que somos figuras diferentes dos nossos pais, que transpomos eles enquanto seres humanos, a grande verdade é que levamos as vidas deles junto com as nossas quando nos tornamos adultos. É a educação deles que fabrica a fundação moral dos filhos. São seus preconceitos, deveres e ideologias que carregamos, ainda que conscientemente tentemos fugir deles. Assim, o complexo de Portnoy não é exclusivo do personagem, e sim um complexo enfrentado por todos nós.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.