Arte

Frick Collection

Como o homem mais odiado da América construiu uma fabulosa coleção de arte em Nova York

por Shoichi Iwashita 8 Jan 2018 13:39

Ele foi o homem mais odiado da América. E com razão. Henry Clay Frick, junto com o outro magnata do aço, Andrew Carnegie (sim, do Carnegie Hall), foi responsável pelo rompimento de uma barragem que resultou na destruição de 1600 casas no vilarejo de Johnstown matando mais de 2200 de seus habitantes em 1889 (o maior desastre causado pelo homem da história dos Estados Unidos antes do ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001). Em 1892, durante uma greve na fábrica de Homestead, uma época pré-direitos trabalhistas quando empregados trabalhavam seis dias por semana e doze horas por dia na árdua e perigosa indústria do aço (um cochilo no trabalho poderia resultar em morte; e para aumentar os lucros, eles queriam reduzir ainda mais os salários e aumentar a carga horária), Frick contrata a Pinkerton, uma agência de detetives mercenários — que existe até hoje! — que possuía um efetivo maior que o exército norte-americano para acabar com a greve e fazer com que a fábrica voltasse a produzir. O resultado: nove trabalhadores mortos e centenas de feridos. Mas, se Frick conseguiu se safar na justiça de ambas as catástrofes (e até diante da opinião pública, que se voltou contra os trabalhadores), uma outra faceta desse empresário implacável se eternizaria — talvez de forma planejada e deliberada —: a de filantropo e colecionador de arte (numa antiga versão impressa da Encyclopaedia Britannica, de 23 linhas dedicadas ao verbete de Frick, dez eram sobre sua carreira como industrial e 13 como colecionador).

A MUDANÇA PARA NOVA YORK E A INFLUÊNCIA DE MORAR NUMA CASA VANDERBILT
De Pittsburgh, segunda maior cidade da Pensilvânia onde começou seu império (sua primeira indústria era de coque, combustível derivado do carvão utilizado em abundância na nascente indústria do aço), Frick se mudou com a família para Nova York — cidade mais condizente com o status de magnata global e seus novos interesses — em 1905, quando já tinha 56 anos de idade (sua casa de Pittsburgh nunca seria vendida e é hoje também um museu de arte, mas da filha de Frick). Durante dez anos, enquanto sua residência no Upper East Side, de frente para o Central Park, não ficava pronta (na Quinta Avenida, vinte ruas abaixo da casa de Carnegie, seu agora ex-sócio), ele alugou a mansão de William Vanderbilt (com 85 quartos!), no número 640 da mesma 5th Avenue (a enorme casa dos Vanderbilt foi demolida nos anos 1940 e deu lugar a um prédio). Morar numa casa repleta de mobília histórica e obras de arte causou uma impressão tão grande em Frick, que ele pagou um preço altíssimo para se transformar, com a ajuda dos marchands Roland Knoedler e, principalmente, Joseph Duveen, em um dos maiores colecionadores de arte do mundo (a competição era grande nesta época de grandes fortunas geradas graças aos monopólios: Rockefeller com o petróleo, Vanderbilt com as ferrovias, Carnegie-Frick com o aço, Hearst com a mídia, Morgan com o dinheiro).

DUVEEN, O MAIS EXTRAORDINÁRIO MARCHAND DE TODOS OS TEMPOS
Frick tinha dinheiro, muito dinheiro. Mas foi Joseph Duveen quem lhe emprestou o olhar refinado para o que havia de melhor no mundo (não só para Frick mas para todos os outros magnatas americanos sem sangue azul que tinham o desejo de ser tão imortais quanto os grandes artistas cujas obras eles compravam). Duveen indicou não só o arquiteto Thomas Hastings para projetar sua casa de meio quarteirão na Quinta Avenida, entre as 70th e a 71st Streets, mas também John Russell Pope, seu último arquiteto favorito (e que desenhou a National Galley of Art de Washington, também sob sua indicação), para converter a mansão em museu após a morte do magnata em 1931 (a Frick Collection abriria suas portas ao público em 1935). Foi Duveen também que disse à Frick que a prataria da casa não estava à altura dos Duveens que ele tinha comprado (era assim que ele chamava as obras que vendia a seus clientes), e que ele só deveria ter peças do maior artesão da prata inglês do século 18, Paul de Lamerie (suas criações eram peças de museu e tão difíceis de encontrar que Duveen passaria anos reunindo peças avulsas de De Lamerie; ainda assim nunca conseguiria formar um jogo completo). E, finalmente, foi através do olhar e da astúcia de Duveen que Frick comprou grande parte das mais fabulosas obras de arte da história que hoje formam a Frick Collection. De apenas 34 pinturas existentes do pintor holandês do século 17, Johannes Vermeer, quatro fazem parte da coleção do tycoon do aço (para você ter uma ideia, o Metropolitan, um dos maiores museus do mundo a 10 ruas daqui, tem cinco). Pinturas fabulosas do século 15 (como a Virgem de Jan van Eyck, o São João de Piero della Francesca ou ainda a Madonna de Gentile da Fabriano), dez pinturas de Fragonard, oito de Van Dyck, sete de Gainsborough, cinco de Whistler, quatro de Goya, quatro de Hals, quatro de Rembrandt, pinturas importantes de Renoir, Ingres, Velázquez, Turner, Holbein, Degas, Corot, e ainda 14 painéis completos que Boucher pintou para a casa de Madame Pompadour (veja na segunda foto abaixo), amante do rei francês Louis 15, fazem da Coleção Frick um dos museus de arte mais importantes do mundo.

A VISITA À FRICK COLLECTION
É só uma pena que não se pode visitar o andar superior onde ficava a ala íntima da casa de Frick. Mas a sensação — apesar da adaptação para se tornar um museu — é a de que se está em uma casa e que Frick pode chegar a qualquer momento. Não há cordas ou barreiras que separam você dessas obras fabulosas e, por isso, crianças menores de 10 anos não são admitidas, mesmo na companhia dos pais. E tirando o jardim de inverno (Garden Court), que tem uma fonte central e bancos ao redor para você respirar um pouco o que foi o estilo de vida de Henry Frick, não se pode tirar fotos no interior da residência. A entrada custa US$ 22 e o audioguide, disponível em dez idiomas, está incluso no valor do ingresso. E não deixe de aproveitar esse pedação da Quinta Avenida que tem, além do Metropolitan, outros pequenos-museus incríveis: a Neue Galerie, na 86, o Guggenheim na 88, o Cooper Hewitt (a casa do Carnegie) na 91, o Jewish Museum na 92, e o Museu da Cidade de Nova York, na 103!

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.