Arte

Forte Atração

A literatura sempre foi um tema para a escritora, redatora e roteirista Tati Bernardi. Clarice Lispector, Hermann Hesse, Freud são alguns dos autores que ela admira

26 Mai 2017 12:21

Capitães de Areia, de Jorge Amado, As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, e Dom Casmurro, de Machado de Assis, foram os primeiros livros que, apesar de obrigatórios pela grade curricular da escola, eu realmente gostei. A literatura mais neurótica já era um tema para mim, uma predileção, uma forte atração, ainda que eu não tivesse a menor ideia do que estava fazendo.

Hermann Hesse foi meu melhor amigo durante a faculdade, quando eu não suportava 90% das pessoas do meu curso. Passei boa parte da minha juventude me forçando a ser “normal” e adorar aquelas viagens e festas e turmas entulhadas em pequenos bares, sempre com uma angústia desgraçada no peito.

Hesse me levou a procurar a palavra misantropia no dicionário, a ler Camus, a usar a palavra “existencialismo” quando queria beijar rapazes mais velhos, a entender minha raiva da burguesia (ao mesmo tempo que eu queria tanto pertencer a ela), a aceitar o meu desejo de ser livre de padrões (e, ao mesmo tempo, ter absoluto pavor da liberdade). E, sobretudo, a estudar psicanálise. Hoje em dia devoro tudo do Freud. Que coisa maravilhosa é estudá-lo!

Nunca fui uma grande fã de “literatura fantástica”. Li pouco de Borges, menos ainda de Bioy Casares e, confesso, mesmo sabendo o risco que minha carreira correrá com isso, não fui exatamente fisgada por eles. Já os cronópios, famas e esperanças de Cortázar e a barata de Kafka me falaram mais “à neurose”.

Já formada, fiz um curso especializado em Clarice Lispector, na USP, com a professora Yudith Rosembaum, e nunca mais me recuperei. Apesar de tantos blogs, memes e adolescentes replicarem suas frases e (mais ainda) seus fakes, o que certamente esfola um tantinho o gigantesco mistério de sua obra, Clarice ainda é, na minha opinião, a maior do Brasil.

Graça Infinita e Grande Sertão Veredas eu continuo (não) lendo há anos. Acho genial e, ao mesmo tempo, sempre desisto quando as costas começam a doer e os olhos a arder. Impossível acabar. Um dia ainda tiro férias só para me dedicar a eles.