Arte

Eu só Quero é ser Feliz

Com Blonde, Frank Ocean cria uma atmosfera paralela, sem radicalismo político, Trump, recessão e insegurança.

24 Mai 2017 08:23

Por Bruno Porto

É difícil precisar quando, mas há alguns anos o pop negro americano roubou do rock, que hoje lembra um senhor atordoado tentando usar o Snapchat, o leme da narrativa do mainstream musical. Artistas como Beyoncé, Kanye West e Kendrick Lamar produzem hits, manchetes e memes numa velocidade difícil de acompanhar, hiptonizando público e crítica. E 2016 não está sendo diferente. Discos como Lemonade, de Beyoncé, e The Life of Pablo, de Kanye, dominaram a conversa no mundo da música (no caso dele, despertando amor e ódio, mas causando de todo modo). O álbum do ano, no entanto, não tem a grandiloquência no DNA como esses dois, apostando em outra proposta: trata-se de Blonde, de outro músico americano, Frank Ocean.

O disco de Beyoncé certamente é mais relevante politicamente, traduzindo em canções poderosas parte do discurso atual de empoderamento feminino, uma das grandes pautas de 2016. The Life of Pablo debutou tendo Perfil Por Bruno Porto suas qualidades musicais ofuscadas por uma polêmica envolvendo o rapper e a cantora Taylor Swift (Kanye diz em Famous que ainda gostaria de fazer sexo com ela). O passar do tempo e várias audições revelam um grande disco. Se não é coeso como os anteriores dele (e essa é a proposta, tudo indica), algumas das canções mais faladas e provocativas de 2016 estão condensadas ali, como a já citada Famous, No more Parties in LA e Fade.

Então por que Blonde é o disco do ano (pelo menos até agora)? Talvez porque seja um antídoto (temporário, que seja) para um dos períodos mais conturbados da história recente da Humanidade. Radicalismo político, Trump, recessão, fim da privacidade, mudanças tecnológicas que transformam nossas vidas, geralmente para o bem, mas que ainda assim geram insegurança. O que fazer diante disso tudo? Refugiar-se no universo musical, sensual e onírico de Ocean.

Essa característica, a sonoridade atmosférica, já estava presente no primeiro trabalho do músico, a mixtape Nostalgia, ULTRA (2011), que trouxe as perfeitas Swim Good e Novacane. Em ambas Ocean despeja sua voz languidamente sobre batidas sexies e arrastadas, tudo realçado por uma produção prodigiosa, pop e ao mesmo tempo rica em referências semiobscuras. As letras seguem a linha que o acompanha até hoje: fragmentos de histórias que falam sobre estar num mundo ora glamoroso ora decadente, quase sempre com uma sensação de não pertencimento. “Eu acho que comecei algo/ consegui o que queria/ consegui, mas não sinto nada, super-humano/ Mesmo quando estou transando, engolindo Viagra”, diz a letra de Novacane.

No ano seguinte, Ocean lançou seu primeiro álbum de fato, o espetacular Channel Orange, onde alterna vinhetas com faixas espetaculares como Thinking about You, Lost e Pyramids. As críticas positivas e entusiásticas da mixtape se multiplicaram e o disco imediatamente ganhou status de cult, com o músico sendo chamado de Marvin Gaye dos anos 2010 nas redes sociais, por conta da alta voltagem de sensualidade das suas canções.

Extremamente cinematográficas, com suas imagens e climas, logo as faixas do disco começaram a virar trilha-sonora para filmes, profissionais e “amadores”. Sofia Coppola incluiu uma das músicas de Channel Orange, Super Rich Kids, no seu longa Bling Ring, sobre, bem, jovens megarricos de Los Angeles. Um clipe não oficial da faixa Lost, feito por fãs, com imagens do filme Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson, viralizou. Mais recentemente a história se repetiu com o surgimento de um vídeo concebido por admiradores que une imagens de Pink + White, de Blonde, com um desenho animado mangá. Dias antes de lançar Blonde, aliás, Ocean botou no mundo um álbum “visual”, Endless.

Blonde está mais próximo de Nostalgia, ULTRA do que de Channel Orange: é menos radiofônico e mais viajante. Nas primeiras audições, pode soar quase etéreo, com melodias mais esparsas. Aos poucos, no entanto, a voz de Ocean, mais bela do que nunca, vai ganhando força, e a riqueza melódica vai ficando mais clara. Logo vem o arrebatamento diante da simplicidade de Ivy, que se constitui inicialmente de pouco mais de uma guitarra com efeitos e o americano cantando; da complexidade de Nights, que muda de andamento e de atmosfera, como se estivesse, sim, anoitecendo; de Nikes, a primeira música de trabalho, fantasmagórica e bela na sua crítica ao materialismo e hedonismo.

Ocean – nascido em Long Beach, Califórnia, em 1987, e criado em New Orleans – começou a carreira produzindo para artistas como Justin Bieber e John Legend. Depois emprestou seus talentos como compositor, produtor e cantor para nomes prestigiados como Beyoncé, Odd Future (grupo de rap visceral que chegou a integrar) e Kanye West. Em Blonde seu lado produtor brilha tanto quanto os outros, com pinceladas musicais roubadas dos Beatles (Here, There and Everywhere é citada em White Ferrari), Bowie e Elliot Smith, entre outros. O espaço entre Channel Orange e Blonde foi de quatro anos. A espera foi grande, mas o buzz era justificado. A série mais badalada do ano, Stranger Things, narra a luta de um menino para fugir de um mundo alternativo, meio sonho meio realidade. Quem ouvir Blonde vai enfrentar o dilema contrário: ter de sair do universo concebido pela mente sensível e genial de Frank Ocean.

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