Arte

Debora Pill celebra a música brasileira em novo programa de rádio

No Brisa, pesquisadora musical mostra que as brasilidades estão vivas no underground da cena

por Artur Tavares 31 Mai 2016 18:26

Rica em diversidade de estilos, a música brasileira tem uma nova casa na internet. Trata-se do programa online Brisa, transmitido pela RBMA Radio. Comandado pela jornalista e pesquisadora Debora Pill, o Brisa não faz restrições. Cada nova edição é temática, e fala desde afrobrasilidades até o rap.

Fã dos grandes Luiz Gonzaga, Clementina de Jesus, Tim Maia, Elis Regina, Pixinguinha, Cartola, Mutantes, João do Vale e Clara Nunes, Pill foi educada desde cedo a ouvir música brasileira dentro de sua casa. “A primeira conexão veio com meus pais. Me lembro de músicas que foram muito marcantes na minha infância, como ‘O Vira’, do Secos e Molhados, e ‘Automatic Lover’, da Dee D. Jackson ‒ em nossa incrível versão brasileira. Essas músicas me faziam explodir de alegria e acabar com o colchão dos meus pais, minha iniciação na pista de dança. Minha coleção de discos de vinil nasceu a partir da coleção deles, que era 90% de música brasileira”, diz ela.

Como se fosse o destino trabalhar com sons – Pill em sérvio significa “o instrumental da música” ‒ a paulistana cresceu, ampliou sua coleção e se envolveu na cena underground brasileira. “Essa paixão por aquilo que é feito aqui virou amor quando eu percebi toda potência transformadora da música em mim e nas pessoas, e, ao mesmo tempo, comecei a acompanhar e me envolver com a cena de música independente em São Paulo, principalmente a partir dos anos 2000. Tudo fluiu muito naturalmente.”

O novo underground

Na mesma época em que Debora se envolveu na cena underground, uma explosão de criatividade atingiu os quatro cantos do País, impulsionada pelo sucesso dos Los Hermanos. A variedade deu origem a um circuito de festivais de música em todo o Brasil, capitaneado pela Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN). Foi desta cena que saíram Malu Magalhães, Vanguart, Cidadão Instigado, entre outros.

A ABRAFIN perdeu sua força na virada da década, e muitos grupos da cena não chegaram ao mainstream. Os reflexos destes festivais geraram a variedade que Debora explora em seus programas. “Acho maravilhoso a produção musical brasileira atual ter se desvencilhado dos esquemas comerciais nocivos, que incluem vícios como o jabá. Acredito que temos toda a condição de criar, e já estamos criando, novos formatos de gravadora, rádio e TV que sejam sustentáveis sem depender dessas velhas soluções. O artista já descobriu novos caminhos para dialogar com seus fãs. A internet e os shows, tanto em casas de pequeno porte como em festivais independentes, têm mostrado a força dessa cadeia produtiva atual. E os ouvintes também estão cada vez mais independentes em busca de suas próprias fontes para conhecer novos sons.”

Nem tudo são flores, porém, reconhece a pesquisadora musical. “O sertanejo e o gospel realmente reinam na massa brasileira hoje. Já o termo ‘universitário’, para mim, significa ‘esvaziado’, ‘fraco’. Um padrão ruim de qualidade. Não cabe no Brisa.” Há, no entanto, um gênero musical “de massa” que agrada Debora Pill. “Vejo o funk como um caminho autêntico, apesar da violência que sua temática comum inspira. Ainda bem que existem MC Garden e as meninas da Liga do Funk para oferecer alguma evolução nesse sentido. Eu acredito no fortalecimento dessa conscientização da mensagem, assim como aconteceu com o hip-hop.”

Pill não acredita que esta nova música underground brasileira exploda e caia no gosto popular, como foram cenas anteriores surgidas no Brasil, tais como a Tropicália, o rock dos anos 1980 e a Vanguarda Paulista. “Ainda somos reféns da situação absurda de concentração das concessões de rádio e TV nas mesmas mãos de sempre, e que não querem largar o osso de jeito nenhum. Acho um desperdício a massa não ter acesso a essa nova produção musical brasileira. Tem gente que fala que a massa não daria valor para esse tipo de música, mas eu acredito muito na formação de público. Além disso, temos exemplos reais de artistas que fazem um som autoral, que não se renderam ao jabá e às práticas nocivas do mainstream, e que mesmo assim estão conquistando a massa, como Criolo, Baiana System, Tulipa Ruiz, Gaby Amarantos, Marcelo Jeneci, Liniker.”

Como uma resposta à política brasileira dos últimos cinquenta anos, foi comum o surgimento de artistas engajados com temas sensíveis dentro da sociedade. Para Pill, a contestação nunca deixou de existir. “Ela pode deixar de ser reconhecida, não passar na TV, mas não deixou de existir. Basta olhar para o rap nacional e para os movimentos na periferia, como os saraus. Isso sem falar das festas gratuitas com sons de estilos bem variados e muitas vezes experimentais que vem ocupando a cidade e contestando os padrões velhos da nossa sociedade. E, mais recentemente, artistas como As Bahia e a Cozinha Mineira, Rico Dalasan ou Liniker, que trazem a questão de gênero para a mesa de jantar da família brasileira.” Para a pesquisadora, crise é oportunidade, e essa fase crítica que o Brasil está vivendo tem sido muito rica para o fortalecimento da resistência entre os artistas desse universo que ela faz parte. “Estamos desenhando novas formas de manter a cadeia produtiva musical viva e em harmonia”, diz ela.

A “brisa” do Brisa

No imaginário popular, o termo “brisa” geralmente é associado a uma alteração no estado de consciência. Foi pensando neste contexto que Pill batizou seu programa. “Brisa vem de uma ideia muito simples, algo que te pegue de surpresa, e que, com leveza e suavidade, te tire do seu lugar conhecido, das tuas certezas. O conceito é levar esse frescor da nova música brasileira para os poros e ouvidos das pessoas.”

A “brisa” da radialista no programa é mostrar música nova de qualidade, mas sem esquecer que há um passado por trás dela. “Importante dizer que a música nova não respeita necessariamente a cronologia. Por exemplo: na edição de estreia eu escolhi o tema ‘Afrobrasilidades’ pela ligação profunda com a nossa identidade. Eu queria começar do começo, de dentro. E ali, junto com representantes da ‘nova música’, como o rapper Emicida e o angolano Pitshu (parte da migração atual que SP vem recebendo nos últimos anos), você também ouve um som de Os Tincoãs, dos anos 1970, que foi um trio fundamental em fazer a ponte entre a música espiritual, ligada ao candomblé, e o mainstream.”

A pesquisadora acredita que seu programa terá vida longa, porque há vastidão na música brasileira. “Não tenho medo dos temas se esgotarem. Na verdade, adoro esse desafio. Um bom exemplo foi o ‘Saudade do Futuro’, que é um tema improvável em comparação a ‘Mulheres’ ou ‘Afrobrasilidade’, e que nasceu da minha vontade de tocar em um único programa Racionais MCs, Cidadão Instigado, João Donato e Nação Zumbi. Fiquei matutando e cheguei à conclusão de que todos tinham pelo menos 20 anos de carreira e ainda hoje fazem música de vanguarda. Daí a partir desse conceito fui atrás dos outros artistas.”

Pill lamenta não conseguir ouvir muito da nova produção musical fora do Brasil. “A produção só vem crescendo e eu só tenho dois ouvidos”, ela diz, rindo. Seu bom gosto é latente mesmo assim. “Fora da música brasileira, normalmente eu vou direto para os anos 1960 e 1970, minhas décadas prediletas para tudo. Mas, para citar coisas mais atuais, amo a música da Ana Tijoux, PJ Harvey, tUnE-yArDs e TheeSatisfaction.”

Para ouvir o Brisa, acesse a Red Bull Music Radio, clicando aqui.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.