Arte

Confissões de uma Mente Perigosa

Filho do jornalista Lucas Mendes, o cineasta Antonio Campos conquistou Cannes e Sundance com filmes sombrios, de estilo experimental, que exploram personagens atormentados

23 Ago 2017 13:09

Por Carlos Messias

“Vamos falar em português, mas talvez eu tenha que mudar para o inglês no meio da conversa.” Foi assim que o cineasta Antonio Campos iniciou, com algum sotaque, a entrevista à Carbono Uomo. Filho do jornalista mineiro Lucas Mendes, apresentador do Manhattan Connection, da GloboNews, e da produtora de cinema americana Rose Ganguzza, Campos nasceu em Nova York, em 1983. Quando não estava trancafiado no seu quarto no apartamento dos pais, no Greenwich Village, vinha ao Brasil anualmente para passar temporadas em Belo Horizonte e acabava sempre ficando por uma semana no Rio, cidade que sua mãe adora. “Nunca me senti de uma única nacionalidade. Fui criado em Nova York, mas meus pais sempre falaram em português em casa”, explica.

A razão do isolamento quando estava em sua cidade natal era uma só: a obsessão pelo cinema. Antonio diz que desde muito cedo é fissurado pela sétima arte. Quando tinha 13 anos, assistiu a Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, e então descobriu o que fazia um diretor. Na sequência, conheceu outros mestres, como Truffaut e Fellini. O resultado foi seu primeiro curta-metragem, intitulado Puberty, que filmou no ano seguinte com apoio da New York Film Academy. “Assisti a Os Incompreendidos [1959, de Truffaut], que era sobre um garoto, e pensei: ‘Eu posso fazer um filme sobre um garoto’. Senti a mesma coisa quando vi Conta Comigo [1986, de Rob Reiner]. Então rodei Puberty, que parece uma mistura dos filmes do início da Nouvelle Vague com Laranja Mecânica e a trilha de Stand by Me. Até que funcionou. Seus pais incentivaram o garoto a se tornar cineasta. “O cinema sempre foi um aspecto importante da nossa convivência em família. Eu me lembro até hoje de quando acabou a primeira exibição de Puberty e meu pai veio me dar um abraço com lágrimas nos olhos”, diz.

O caminho natural para o prodígio foi estudar cinema na Universidade de Nova York. Depois de formado, ele e seus dois amigos de faculdade, Sean Durkin e Josh Mond, fundaram a produtora independente Borderline Films, na qual começaram a se revezar nos papéis de diretores e produtores. Depois de diversos curtas, Campos realizou o seu primeiro longa-metragem como diretor e roteirista, Depois da Escola (2008), que estreou no Festival de Cannes e foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No filme, ele faz um retrato perturbador do comportamento sexual da geração YouTube. A provocação parece ser a linha editorial da Borderline. “Gosto de longas que me deixem desconfortável e façam com que eu repense coisas que para mim eram tidas como certas. É isso que procuro fazer com os meus filmes”, explica.

Por ter sido influenciado por cineastas autorais – Rainer Werner Fassbinder, Ingmar Bergman, Michael Haneke inclusos –, Antonio diz ter percebido muito cedo que “por mais que exista uma lógica estabelecida sobre como filmar, é possível experimentar novas maneiras de ver as coisas”. Seu longa seguinte, Simon Killer (2012), foi lançado no Festival de Sundance, a meca do cinema independente, e conta a história de um americano que se apaixona por uma prostituta em Paris e desenvolve tendências homicidas a partir do relacionamento obsessivo. “O cinema é um espaço no qual podemos deixar a moral de lado. Minha abordagem dos personagens tende a ser honesta e a mostrá-los com todas as suas vulnerabilidades. Prefiro deixar o julgamento moral para a plateia e não direcioná-la a pensar uma coisa ou outra”, avalia.

Como produtor, seu maior sucesso foi Martha Marcy May Marlene (2011), mais uma ação entre amigos dirigida pelo parceiro Sean Durkin, que foi premiado em Cannes, Sundance e no Festival de Los Angeles, entre outros. “Fiquei surpreso por termos tido dinheiro para fazer o filme que queríamos. Foi uma grande conquista”, comemora. Apesar do reconhecimento, Campos não vê nenhum blockbuster saindo da Borderline. “Gostaríamos de fazer filmes maiores e, assim, atrair mais espectadores, mas nunca vamos fazer cinema mainstream”, declara. Seu terceiro longa como diretor, Christine, foi exibido no Festival do Rio em 2015 e estreou no circuito comercial em outubro nos Estados Unidos. Estrelado por Rebecca Hall (de Vicky Cristina Barcelona), consiste em uma cinebiografia da repórter Christine Chubbuck, que se matou com um tiro na cabeça durante uma transmissão ao vivo em 1974. À época do lançamento do filme, Antonio já estava envolvido em outro projeto. Dirigia o piloto da série The Sinner, protagonizada pela musa Jessica Biel para a emissora de TV USA. “Adorei o roteiro e estou achando incrível dirigir a Jessica, que é uma atriz muito esperta. Às vezes tenho que me beliscar para conferir se é verdade.”

Antonio Campos hoje mora em Fort Greene, no Brooklyn, com a mulher, a montadora chilena Sofia Subercaseaux, que editou Christine. Diz que não visita o Brasil há seis anos, mas pretende ir ao país natal dela em 2017 e aproveitar para apresentá-la ao Brasil. Entre as atrações, ele destaca a gastronomia nacional. “Feijoada é a minha comida preferida no universo. Também adoro coxinha, mas é tão difícil encontrar uma decente em Nova York”, lamenta. Quando informado que coxinha se tornou um termo para definir membros da direita em meio à atual polarização do cenário político brasileiro, Antonio deu risada. “Isso é hilário!”