Arte

Cinema feito com baixo orçamento

Quem são, o que pensam, como trabalham e o que querem alguns dos mais brilhantes cineastas brasileiros da nova geração

por Ronaldo Bressane 14 Out 2016 13:52
Cena do filme "Alemão", do cineasta José Eduardo Belmonte

Você é um jovem cineasta, cheio de ideias frescas na cabeça, com algum equipamento na mão — e toda a tecnologia que seus antecessores não tinham: facilidades para a produção de imagens e para a divulgação de seus projetos. Só não contava com dois inimigos. A desigual distribuição de filmes nacionais nas salas de cinema e a massiva concorrência com os blockbusters gringos, que monopolizam mais da metade dos cinemas disponíveis com um marketing agressivo e onipresente, bem como as produções aliadas da Globo — que, além de contar com estrelas conhecidas em outras mídias, tem uma estratégia poderosa de aproximação com o público através de uma empresa de comunicação com múltiplos tentáculos. Nesta guerra dos santos guerreiros contra os dragões da maldade nas bilheterias — sejam a peixinha Dory, filmes de super-heróis ou chanchadas inócuas e tolas —, você vê algumas luzes. Trabalhar no exterior, produzir para gigantes como a Netflix, manter um pé no underground e outro no mainstream, abraçar os filmes de gênero (suspense, horror ou erotismo), rodar por festivais de cinema do mundo todo, colocar seu filme em outras plataformas. E, acima de tudo, manter-se fiel à vontade de contar suas próprias histórias sem se preocupar muito com o sucesso do público ou os louros da crítica — se der para pagar o aluguel, melhor ainda. Produzindo com BO (baixos orçamentos), recolhendo cacos de investimento através de editais e leis de incentivo, ou mesmo fazendo tudo às próprias custas: vale tudo nessa batalha por trazer originalidade e uma voz autoral ao audiovisual — mesmo que a maior recompensa não seja a grana ou um prêmio maior do que a própria realização de seu filme, que pode deixar pilhada o jovem cineasta em busca da próxima fita. CarbonoUomo conversou com alguns dos mais originais cineastas entre 20 e 40 anos para entender como é esse tesão louco que os faz sonhar durante anos só para ver seu filme brilhar em uma sala escura — não importa se para milhares ou se só para alguns sortudos espectadores.

ANITA ROCHA DA SILVEIRA
Em 2008, a carioca de 31 anos realizou seu primeiro curta-metragem, O Vampiro do Meio-Dia, e a partir daí começou a trabalhar com um universo jovem associado a elementos fantásticos. Em Mate-me Por Favor radicalizou ao trazer elementos de terror e suspense. “Mas no fundo trata-se de um filme sobre a descoberta do próprio corpo, do desejo, da morte, inspirado em experiências e sentimentos que vivi ou presenciei ao longo da adolescência”, conta ela, que elenca entre suas referências David Lynch, Claire Denis, Truffaut, Hou Hsiao-Hsien, Tsai Ming-Liang, Lucrécia Martel, Maurice Pialat, Todd Haynes e Sganzerla. Mesmo transitando em um gênero afeito a sucessos, não tem a ambição de competir com blockbusters: crê que há outras maneiras de formar audiência além do circuito comercial — filmes em festivais, cineclubes, escolas, universidades. Cinema? “Um ponto de vista original associado a uma experiência estética”, define.

JOSÉ EDUARDO BELMONTE
“Grandes histórias estão sempre acontecendo; é preciso estar atento a elas”, diz o decano desta nova geração, um brasiliense de 46 anos que tem no currículo sucessos de público como Alemão e filmes experimentais como O Gorila, baseado em conto de Sérgio Sant’Anna. “Não procuro escolhê-las, mas deixar que me escolham. Não acho impossível juntar o autoral ao popular”, conta o discípulo de Nelson Pereira dos Santos, Clara Alvin, Regina Calazaens e Zé Luis Braga. “Alemão foi um filme feito sem lei de incentivo nem Globo Gilmes co-produzindo — mas tem um tema, um gênero e bons atores que interessavam ao público. Os filmes precisam ser criativos sempre, quebrar o pensamento binário que prende o País”, justifica o cineasta.

DANIEL ARAGÃO
“Pra nosso cinema de qualidade voltar a ter audiência, como um dia teve nos anos 1970, é preciso destruir todo o estamento burocrático brasileiro”, detona o pernambucano Daniel Aragão, 34 anos. “Sem a derrocada do cinema estatal, incluindo o monopólio da Globo (que também se aproveita desse mesmo sistema), o cinema nacional está morto. Um filme em Cannes que quando chega no Brasil só coloca 0,1% de seu povo nas salas não quer dizer porra nenhuma.” Aragão pretende relançar seu premiado longa Boa sorte, meu amor em cores — e batalha para colocar no ar Prometo um dia deixar essa cidade; “esse filme você ainda não viu pois as salas de cinema se recusam a passar”, afirma. Exilado em Montreal, finaliza um documentário sobre seu processo de ruptura com o Brasil e prepara “um longa-metragem pornográfico com menores que vivem no Canadá”.

FERNANDO COIMBRA
“Diminuiu o espaço nas salas de cinema, cada vez mais tomadas pelas inúmeras cópias dos blockbusters americanos, que chegam com suas versões 3D, 2D, dublada e legendada; mas aumentaram as possibilidades de distribuição em plataformas de VOD e streaming”, diz o paulistano de 39 anos. “Com ingressos caros, as pessoas são mais seletivas na sala de cinema. O bloqueio é furável: é só não ocupar o mesmo espaço do blockbuster”, formula o diretor de O lobo atrás da porta e de alguns episódios da série Narcos. Na reta final da montagem do novo filme, Sand castle, sua primeira produção norte-americana, filmada na Jordânia, dirigiu astros como Henry Cavill, Nicholas Hoult e Logan Marshal Green. Capta recursos para o seu próximo filme, Os enforcados, e afirma não ver diferenças entre dirigir um filme nacional e ser contratado por Hollywood ou pela Netflix: “Quando estou no set, tomo minhas decisões e crio conforme meus instintos. Sempre acho espaço para que imprimir a minha digital”, descreve o fã de Spielberg, Verhoeven, Scorsese, Coppola, Leone e Kubrick.

LEONARDO MOURAMATEUS
Radicado em Portugal, onde finaliza a comédia António Um Dois Três, seu primeiro longa, o cearense de 24 anos gosta de filmes “quanto mais obscuro melhor”: não lhe interessa ganhar a audiência. “Se um futuro filme for um sucesso não será porque obedeci as leis de um blockbuster”, diz. “Rimar autoria com qualidade é mentira: o importante é rimar autoria com diversidade. O Brasil tem de produzir cada vez mais diretores, com histórias e modos de fazer distintos”, acredita o autor de dez curtas-metragens que combinam intimismo, música eletrônica, amores expressos e cortes estouradas — um cinema que causa implicações físicas no espectador. “Gosto de filmes com o poder de fazer quem os assiste terem vontade de sair do cinema pra viver algo que até então não tinha vivido: fazer uma revolução ou um filho”, define este fã do caleidoscópico romance Três Tigres Tristes, de Guillermo Cabrera Infante.

MARCO DUTRA
“O Brasil é um bom terreno para o horror”, afirma o cineasta paulista de 36 anos, diretor do Quando eu era vivo. “Prova disso é nossa capacidade de trabalhar com alegorias, como o Cinema Novo fez tão bem. Precisamos entender nosso território, nossa histórias, nossos medos para desvendar de vez o gênero. Vejo cada vez mais filmes fantásticos brasileiros aparecendo, e isso me entusiasma muito”, diz. Dutra acredita que o público gosta de autores com assinatura muito definida. “Ninguém quer ver filmes genéricos.” Daí citar suas influências: Khouri, Carpenter, Hitchcock, Ford, Mojica e Joaquim Pedro de Andrade. Prestes a lançar seu terceiro longa, O silêncio do céu, rodado no Uruguai, já monta o quarto filme, As boas maneiras, fábula de horror — e lobisomens — codirigido com Juliana Rojas, sua parceira no ótimo curta de terror Trabalhar cansa.

RODRIGO GASPARINI & DANTE VESCIO
Sempre em dupla, os paulistanos de 20 e poucos anos que fizeram história ao levar às telas um dos maiores lendas urbanas brasileiras, A Loira do Banheiro, agora trabalha em um novo longa de terror. “O que vem funcionando pra gente é o uso da internet e redes sociais, e os parceiros e contatos que ganhamos através delas”, ensinam. “Tentar ter uma produção constante também ajuda. O mais importante é nunca esquecer de onde a gente veio e o que a gente curte como espectadores e fãs de cinema de gênero de forma geral, não só terror”, indicam estes fãs de Polanski, Kurosawa, Welles, Bergman, Tarantino, De Palma e Mujica, loucos por filmes “com mais estética e música do que papo furado”, dizem.

DAVI PRETTO
O gaúcho de 28 anos não gosta de definições: se é rock ou punk, se é terror ou suspense, ficção ou documentário. “Gosto do mistério, do que está entre duas definições, do indefinido, ideia da transição, da fronteira. Sempre gostei das personagens difíceis de perceber se são bandido vs mocinho, que quebrem a lógica do que deve ser um personagem masculino, feminino, heterossexual, homossexual etc. Por que eu acho que as pessoas na vida são assim, complexas de entender por completo”, explica o diretor de Castanha, sobre uma notória transformista de Porto Alegre. “Blockbusters e filmes globais sempre vão estar aí. O cinema mais arriscado, artístico, alternativo corre sempre em paralelo. O importante é fazer o cinema em que você acredita”, afirma este seguidor de Tourneur, Bresson, Cassavetes, Tonacci e Khouri. “Cinema tem que misturar teletransporte, mensagem na garrafa, transe, meditação e catarse”, define o cineasta, que finaliza Rifle, seu segundo longa.