Arte

Atômica, a agente secreta do século 21

Estilo único e entretenimento do começo ao fim garantem bom filme com Charlize Theron

por Shoichi Iwashita 31 Ago 2017 12:40

Se, desde 1956, a bebida de James Bond é o dry martini — do “shaken, not stirred” ao Vesper —, Lorraine Broughton (guarde esse nome), a agente lésbica do MI6, o Serviço Secreto de Inteligência Internacional do Reino Unido, só bebe vodca Stolichnaya on the rocks e fuma (tipo, muito; o filme todo). E a Atomic Blonde (o filme em português ganhou o nome Atômica), interpretada pela belíssima atriz sul-africana Charlize Theron (que também é produtora do filme), apesar de não ser personagem com a profundidade e complexidade da Femme Nikita, a assassina do filme de Luc Besson de 1990 (minha preferida até hoje), e o roteiro ser daqueles que a gente já viu inúmeras vezes nos filmes de espionagem (agente-morre-agente-tenta-regastar-informação-que-pode-colocar-o-mundo-em-risco-e-“a-gente”-nunca-sabe-quem-está-do-lado-de-quem), é entretenimento puro e dos bons.

Isso porque o filme é puro estilo. Além, obviamente, da beleza da musa da Dior (e Charlize desfila um guarda-roupa enorme ao longo do filme, com seus dois metros de perna) e do charme do ator escocês John McAvoy (o agente Percival que faz par — ou pelo menos, deveria — com Lorraine), Atômica é ambientado na Berlim de 1989, alguns dias antes da queda do muro que simbolizou o fim da Guerra Fria (espere por muito neon, cena underground, grafite e… russos). Segundo, porque a trilha sonora é espetacular. Uma das melhores cenas do filme, em que ela luta com policiais alemães no apartamento do agente que foi assassinado, acontece ao som de Father Figure do George Michael (!), tocado em fita cassete (!!); sendo que o filme abre com Blue Monday 88, do New Order!!! Não só: tem também David Bowie, Depeche Mode, Siouxsie and the Banshes, The Clash, After the Fire (tudo bem, é fácil agradar a geração Z usando só os blockbusters que marcaram a época, mas não deixa de ser uma delícia ouvi-las no cinema, desse jeito)… E as lutas — e o jogo de câmeras e a edição das cenas — são incríveis. Talvez por que o diretor David Leitch tenha atuado como dublê em mais de 50 filmes, de atores como Jean-Claude Van Damme e Brad Pitt; ou seja, de luta ele entende. A última grande batalha do filme tem quase 10 minutos (e Charlize lascou dois dentes durante as gravações).

E em tempos de discussão sobre o empoderamento da mulher e todas as questões que envolvem o assunto, é simbólico ver um personagem feminino como protagonista em um filme de espionagem e não mais na sombra de James Bonds (007) e Ethan Hunts (Missão Impossível). E Lorraine está impecável no papel de a mais bela no meio das feras. E parece que esse é só o primeiro…

P.S. Eu sempre digo que o mundo precisa de edição. Hoje em dia é tão fácil perder coisas boas ou essenciais por conta da quantidade de “ruído”, da sobrecarga de informações a que somos submetidos todos os dias, que é essencial termos pessoas, veículos e empresas que “filtrem” o mundo para nós; que sejam extensões — confiáveis — dos nossos olhos, do nosso olhar. Eu assisti ao Atômica em primeira mão, a convite da LamparinaWeb, uma agência de curadoria de conteúdo, que também me apresentou na época (também em primeira mão) o incrível filme do Tom Ford, Animais Noturnos. E é isso o que essas três talentosas jornalistas fazem com o Cine Lamparina e fica aqui o meu agradecimento à Graziela Salomão, à Larissa Saram e à Luciana Borges por trazerem só o melhor para os leitores da Simonde (onde o texto foi originalmente publicado).

Shoichi Iwashita

Compulsivo por informação, pesquisador contumaz, apaixonado por livros, jornais e revistas, e colecionador de moleskines com anotações de viagens e restaurantes, o resultado que almeja são textos-em-contexto sobre experiências, de forma que o leitor, de posse delas, aproveite só o melhor de cada lugar; em Nova York, Tóquio, Paris ou São Paulo.