Arte

As novas damas da arte

Conheça a geração de mulheres que vêm tomando para si os rumos das artes plásticas no País

19 Jan 2018 13:02
Antonia Bergamin

Por Daniel Salles

Nara Roesler. Raquel Arnaud. Luisa Strina. É impossível falar sobre o mercado de artes plásticas brasileiro sem citar o nome dessas galeristas, ou notar a contribuição de mulheres como Milu Villela, presidente do Itaú Cultural, e Fernanda Feitosa, fundadora da SP-Arte. Por anos, foram elas que deram boa parte das cartas nesse universo. Agora surge uma nova geração, que tem ajudado a redesenhar os rumos do mercado. Saiba quem são as sucessoras das antigas damas das artes.

Julia Brito
Do ano passado para cá, a galeria Luciana Brito deu alguns de seus passos mais decisivos. Em março de 2016, saiu da Rua Gomes de Carvalho, na Vila Olímpia, e passou a ocupar um imóvel de 1958 projetado pelo arquiteto Rino Levi e com paisagismo assinado por ninguém menos que Burle Marx. Em setembro último, inaugurou uma filial temporária em Nova York, no bairro de Tribeca, em Manhattan. As conquistas coincidem com a chegada da filha da fundadora à cadeira de diretora. Paulistana de 26 anos, Julia passou a dar expediente na galeria da mãe há quatro anos. “Mas me envolvo desde pequena, sempre foi uma extensão de casa”, conta ela, que testemunhou cada etapa da ascensão de artistas badalados como Regina Silveira e Rochelle Costi. Antes de abraçar o universo artístico, a jovem flertou com a indústria fashion. Chegou a cursar gerenciamento de moda em Londres, mas, volta e meia, era convocada para representar a galeria em feiras europeias. Voltou direto para o ofício atual. “Trouxe um olhar mais jovem para o negócio e que se complementa perfeitamente ao da minha mãe”, diz Julia.

Antonia Bergamin
Uma das lembranças mais vivas que ela tem da infância é a de brincar com a obra Bichos, de Lygia Clark, nos salões do Copacabana Palace. Era lá que seu pai, Jones Bergamin, dono de uma das casas de leilões mais importantes do país, a Bolsa de Arte, vendia trabalhos de artistas como Alfredo Volpi, Antônio Bandeira e Mira Schendel. “Todas as obras eram levadas até lá, e eu ficava circulando entre elas”, lembra Antonia, que em família viajava invariavelmente para destinos repletos de museus e galerias como Paris, Londres e Nova York. Decidida a seguir os passos do pai, a carioca cursou arquitetura na PUC do Rio, mas trocou a graduação na metade pela de administração. “Achei que seria mais útil do que a primeira, que não deu tanta ênfase às artes plásticas como eu previa”, justifica. Aos 29 anos, ela dirige, ao lado de Thiago Gomide, a galeria paulistana Bergamin & Gomide, instalada no número 379 da Rua Oscar Freire, nos Jardins. Fundada em 2012, é uma espécie de continuação da galeria criada há 12 anos pelo pai dela, a Bergamin. O negócio, que comercializa obras e promove exposições, mas não representa nenhum artista, triplicou o faturamento nos últimos dois anos. “De certo modo, a crise econômica foi positiva para o nosso mercado. Ficou só quem de fato tem o que oferecer e é apaixonado por artes”, diz ela.

Fernanda Resstom
Fundada por Wagner Lungov, em 2010, a Central Galeria, de São Paulo, teve por um semestre, em 2012, uma estagiária chamada Fernanda Resstom. Fazia de tudo um pouco. “Sou hiperativa e não consigo ficar esperando alguém me passar alguma tarefa”, diz ela, que, em seguida, trabalhou por três anos na galeria Carbono (não há nenhuma relação com esta Carbono Uomo). Fernanda voltou a dar expediente na Central em março do ano passado, mas como uma das sócias. Em julho último, com a saída de Daniel de Lavor, virou a única dona. “Refizemos todo o negócio e renovamos o time de artistas”, conta ela, que os expôs na primeira edição da feira Semana de Arte, em agosto. Da nova safra de artistas fazem parte a pintora carioca Gisele Camargo e o baiano Mano Penalva, conhecido pelas assemblages. Paulistana, a galerista está hoje com 30 anos. Formada em arquitetura pela Escola da Cidade, jamais trabalhou na área. “Nunca passei em uma entrevista”, confessa ela, que se diz
fascinada por arte desde cedo. “Nos fins de semana, implorava para meu pai para ir a um museu e não a um parque.”

Sofia Derani
Em meados de 2014, o Masp devia cerca de R$ 75 milhões e parecia fadado ao abandono e à irrelevância. Passados três anos, o aniversário de 70 anos do mais importante museu do país foi celebrado de maneira especial: o Masp equacionou toda a sua dívida e vem apresentando mostras de impacto como a recente Toulouse-Lautrec em Vermelho, reunião de obras do francês que retratou a vida boêmia de Paris no fim do século 19. As conquistas se devem à gestão encabeçada pelo consultor de empresas Heitor Martins, o atual presidente. Uma de suas medidas para ampliar as receitas e oxigenar a instituição foi a criação de um colegiado de jovens patronos, que precisam ter até 39 anos e desembolsar cerca de R$ 5 mil. A empresária Sofia Derani, de 25 anos, sócia da grife de produtos de beleza Reload Positive Beauty, foi convidada para liderar essa turma. “Minha missão é convencer mais jovens a se engajar com o museu”, conta ela. “Sem novos quadros, ele corre o risco de ficar ao Deus dará no futuro. Dona de uma coleção de obras de grafiteiros festejados como Osgemeos, Cranio, Speto e Nina Pandolfo, ela frequenta o Masp desde que se entende por gente. “Não lembro de ir obrigada pelos meus pais, mas porque queria”, diz ela, que afirma já ter convencido dez pessoas a ingressar no colegiado.

Camila Yunes Guarita e Fernanda Moraes
Não faz muito tempo, um cliente incumbiu a dupla de comprar certa obra de Olafur Eliasson. Mas ela já havia sido vendida. Para solucionar o problema, as duas convenceram o badalado artista dinamarquês a criar uma nova peça, parecida com a outra. A missão dá uma ideia dos desafios enfrentados pelas art advisors, sócias da GoArt. Fundada em 2015, a empresa é destinada tanto a quem quer comprar uma obra de arte, mas não faz ideia como, quanto a pessoas interessadas em formar uma coleção. “Investir em arte é muito mais simples e em conta do que se imagina”, diz Camila, de 25 anos. Formada em arquitetura pelo Mackenzie, ela já trabalhou na equipe de vendas da Galeria Nara Roesler e da unidade francesa da Continua, que representa nomes como Ai Weiwei e Antony Gormley. Conheceu a Fernanda, de 33 anos, formada em design pela Faap, em uma Bienal de Veneza há poucos anos. Logo viraram amigas e sócias. A dupla conta já ter ajudado a formar coleções de arte com mais de 50 peças (os interessados devem escrever para contato@goarte.com.br) e revela só o nome de um cliente, o Shopping Iguatemi, para o qual cria experiências. A última delas foi uma viagem para Veneza com seis clientes apaixonados por arte.