Arte

Arte Descomplicada

De carreira meteórica, o galerista Luis Maluf conquistou em menos de uma década seu espaço nas artes paulistanas. Agora ele alça voos no exterior

por Artur Tavares 13 Dez 2017 11:52

No mundo da arte contemporânea, um dos grandes destaques das últimas décadas foi a transposição dos trabalhos formais para as paredes e muros da cidade. O pixo e o grafite tornaram-se expoentes de vozes que não chegavam em galerias. Agora há um movimento reverso, que leva esses nomes da street art de volta aos espaços fechados, aos cubos brancos. Paulistano de 28 anos, Luis Maluf percebeu muito jovem essa transição. Abriu sua própria galeria há três anos, elevando nomes (e preços) de nomes como os do grafiteiro Cranio às alturas.

Localizada na região dos Jardins, a Luis Maluf Art Gallery tem 12 artistas residentes fixos, entre eles a francesa Gasediel, que dialogam com a street art em seus trabalhos. Se nas ruas eles realizam trabalhos ilegais, dentro da galeria suas obras chegam a ser vendidas por preços que ficam perto da casa dos R$ 200 mil, como foi o caso recente do próprio Cranio na SP-Arte. Entre os clientes de Luis Maluf estão nomes como o do ator Bruno Gagliasso e outros impublicáveis pelo sigilo entre cliente e marchand. São colecionadores de longa data e seus filhos, jovens como o próprio Maluf, que querem iniciar seus próprios apanhados deste período das artes.

De sobrenome que pouco tem a ver com o mundo artístico, Luis Maluf cresceu no bairro paulistano da Vila Mariana em um prédio cheio de ateliês, e teve contato com a formalidade da técnica não somente por seus vizinhos, mas também no colégio construtivista que estudava, a CAMB – Escola Caminho Aberto. Sua mãe era entusiasta do talento do filho, mas seu pai, não. “Quando viajávamos para a praia, ela me colocava em cursos de escultura em areia. Meu pai, por outro lado, nunca apoiou as artes. Por isso, fui estudar design gráfico. Era parecido, e havia um mercado de trabalho aberto”, conta o galerista. Não deu certo. Ele largou tudo no quinto semestre, desafiou a família e foi cursar artes. Ao mesmo tempo, dava aulas para crianças carentes no centro de São Paulo. Através de uma amiga que tinha uma loja de roupas, conseguiu um escritório em uma sobreloja na Rua Oscar Freire. Lá começou um e-commerce de arte que nunca deu certo. Luis era figura carimbada na noite paulistana, conhecia artistas da faculdade e vendia as obras antes mesmo de colocá-las on-line. O negócio cresceu: “Pegamos da metade da loja para trás, um lugar que tinha um minibar, onde montamos uma pequena galeria. Fiquei três anos nessa. Não ganhava dinheiro, mas amava o que fazia, aprendi pra caramba. Fazia exposições, festas, juntava um monte de gente bonita. Uni duas coisas de que gostava em uma só, eu vendia arte na balada”.

Quando decidiu abrir sua própria galeria, em 2014, Maluf tinha um objetivo: exclusividade com todos os artistas com quem trabalha. Hoje, promove mensalmente uma exposição individual de cada um. “Nós fazemos o caminho inverso das grandes galerias, crescemos junto com eles. Não pegamos artistas com nome e trazemos para cá. O intuito da galeria é crescer e criar um pilar que se sustente. A relação com o mercado de arte é muito complicada. Você pode ter o contrato que for. Se você não vender o artista, não colocá-lo em grandes museus ou grandes feiras, tchau. Sempre lutei para isso na minha carreira.”

O sucesso fez com que Luis abrisse uma segunda galeria, a Luis Maluf Art Lab, na Vila Madalena. Em parceria com marcas famosas, oferece oficinas e workshops com seus residentes. No primeiro semestre deste ano manteve uma pop-up no Rio de Janeiro, e até o final do ano pretende estar com tudo certo para inaugurar sua primeira filial no exterior, em Miami. O futuro para o jovem galerista parece promissor: “Eu gosto muito do mercado asiático, de Londres e de Nova York. Chegar aos grandes museus, como o MoMA, é meio irreal. Primeiro eu preciso estar entre as grandes galerias do Brasil, e para isso meus artistas têm que estar nos grandes museus daqui”.

OS ARTISTAS DE MALUF
Além do renomado Cranio e da francesa Gasediel, Luis Maluf ainda representa com exclusividade dez artistas, alguns deles em âmbito mundial. São eles: Apolo Torres, Gian Baldacconi, Edu Cardoso, Vermelho Steam, Vini Parisi, Pedro Pezte, Francisco Rosa – também diretor artístico da galeria – e Caligrapixo. Outros nomes, como a sensação internacional Alexandre Orion, também expõem por lá. Estes são alguns destaques da Luis Maluf Art Gallery:

CRANIO
Fabio Oliveira, mais conhecido como Cranio, cresceu na zona norte de São Paulo. Foi no ano de 1998 que ele começou a cobrir o cinza dos muros com figuras de índios azuis, que roubam olhares e ainda instigam o observador a pensar sobre questões contemporâneas como consumismo, identidade e meio ambiente. Desenhos animados e o pintor Salvador Dalí são algumas das referências que Cranio guarda em mente.

CALIGRAPIXO
É um projeto baseado na caligrafia da pixação de São Paulo, criado pelo pixador Kamikaze (kmkz) e que se tornou seu nome artístico a partir de 2011. O artista interfere na paisagem urbana com seus traços, num formato de site specific, que acompanham a arquitetura da cidade e sinalizam os lugares e os não lugares de São Paulo. Sua produção é resultado de um trabalho com o pixo que remete há mais de duas décadas nos muros paulistanos.

FRANCISCO ROSA
Mineiro da cidade de Viçosa, ele transita por várias linguagens artísticas tendo como base a reutilização de resíduos sólidos do ambiente urbano, seu campo de pesquisa artística há mais de 15 anos. Sua poética possui um quê de ingenuidade muito sofisticado e consciente, que faz da simplicidade do seu trabalho uma área complexa no fluxo de significação da contemporaneidade e de fruição para o observador.

GASEDIEL
Francesa formada na Escola de Arte Mural de Versailles, ela apareceu no cenário paulistano primeiro em 2008, quando começou a pintar muros no Beco do Batman, em galpões abandonados do Brás, galerias de esgoto e em outras paisagens da capital paulista. Sua exposição mais recente na Luis Maluf Art Gallery abordou o universo silencioso dos garis que limpam a metrópole. É a única estrangeira representada pelo galerista.

VERMELHO STEAM
Em uma atmosfera escura e movida a vapor, o artista plástico Vermelho cria suas obras com inspirações que vão do teatro de bonecos do leste europeu do século 19 ao expressionismo alemão e referências dos dias atuais, como cinema, animação e HQs. Além de pintar, Vermelho Steam também produz esculturas belíssimas com a mesma temática.

Artur Tavares

Sob o signo de câncer, nasceu de oito meses. Desde este infortúnio, mostrou-se impaciente. Soube aproveitar esta peculiaridade e transformá-la em curiosidade. Odeia rejeitar convites para restaurantes, está sempre com um livro e adora passar os finais de semana em meio à natureza, com suas companhias favoritas e o melhor da música eletrônica.